inspiro e o ar não entra
expiro e o ar não sai
que faço agora?
já não tenho mais corpo
cortado de novo
sem respirar
30 de junho de 2016
8 de junho de 2016
29 de abril de 2016
ondas
um mundo de água por dentro
uma fina capa apenas mantém a forma
onde crescem peixes do ar e unicórnios de flores
balança numa ginga ritmada
ao som das voltas em torno do sol
balança a água
ondas sobem e baixam
balançam os peixes e os unicórnios
as flores, as ondas sobem e baixam
sobe uma onda, quebra a fina capa
a água espalha-se pelo vazio
espaço ocupado agora
no "mundo d'água"
uma fina capa apenas mantém a forma
onde crescem peixes do ar e unicórnios de flores
balança numa ginga ritmada
ao som das voltas em torno do sol
balança a água
ondas sobem e baixam
balançam os peixes e os unicórnios
as flores, as ondas sobem e baixam
sobe uma onda, quebra a fina capa
a água espalha-se pelo vazio
espaço ocupado agora
no "mundo d'água"
14 de abril de 2016
gota a gota
gotas rosa e laranja
caem sobre a minha pele
devagar dissolvem a fina capa
e espalham-se por todos os recantos
em ondas de amor e cheiro de canela
no "mundo d'água"
caem sobre a minha pele
devagar dissolvem a fina capa
e espalham-se por todos os recantos
em ondas de amor e cheiro de canela
no "mundo d'água"
13 de abril de 2016
31 de março de 2016
30 de março de 2016
28 de março de 2016
mãos
pelas tuas mãos passa a minha pele
e por elas,
não sei o que fazer das minhas
in "terra em mim"
e por elas,
não sei o que fazer das minhas
in "terra em mim"
23 de março de 2016
22 de março de 2016
toque
tempo suspenso
um toque que mal toca
na intensidade e
respiração profunda
transmutação da pele
in "terra em mim"
um toque que mal toca
na intensidade e
respiração profunda
transmutação da pele
in "terra em mim"
8 de março de 2016
rotina
Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Eugénio de Andrade
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Eugénio de Andrade
1 de março de 2016
Lembra-me um sonho lindo
Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada
Canta, rouxinol, canta, não me dês penas
Cresce, girassol, cresce entre açucenas
Afaga-me o corpo todo, se te pertenço
Rasga-me o ventre ardendo em fumo de incenso
Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada
Ai! Como eu te quero! Ai! De madrugada!
Ai! Alma da terra! Ai! Linda, assim deitada!
Ai! Como eu te amo! Ai! Tão sossegada!
Ai! Beijo-te o corpo! Ai! Seara tão desejada!
Fausto Bordalo Dias, letra "Lembra-me um sonho lindo" in "Por este Rio Acima"
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada
Canta, rouxinol, canta, não me dês penas
Cresce, girassol, cresce entre açucenas
Afaga-me o corpo todo, se te pertenço
Rasga-me o ventre ardendo em fumo de incenso
Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada
Ai! Como eu te quero! Ai! De madrugada!
Ai! Alma da terra! Ai! Linda, assim deitada!
Ai! Como eu te amo! Ai! Tão sossegada!
Ai! Beijo-te o corpo! Ai! Seara tão desejada!
Fausto Bordalo Dias, letra "Lembra-me um sonho lindo" in "Por este Rio Acima"
18 de fevereiro de 2016
o que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
15 de fevereiro de 2016
nada
nada
vazio
absolutamente nada
até o vazio entre galáxias está pleno de ligações
in "caminho das pedras"
13 de fevereiro de 2016
verde esmeralda
Vento vagabundo
Rumores de folhas e águas correntes,
aroma de chuva e terra
Raízes profundas
entrelaçadas em mim
atentas, pulsantes.
Verde esmeralda,
húmido, suave e quente
Que me leva.
in "caminhos do vento"
10 de fevereiro de 2016
vem sentar-te comigo
![]() |
| d'aprés kenglye |
vem sentar-te
comigo, querido
à beira rio
sentir
a água passar debaixo
dos pés
o calor do sol nos
tornozelos
vem sentar-te
comigo, querido
a ver os peixes
preguiçarem.
sons de sapos e
ovelhas
o dia que não
termina e, contudo, se move.
in “caminhos do vento”
9 de fevereiro de 2016
sossego
o sossego não me larga
esta paz nos pés
larga na cintura
balouçar na rede da tarde
a brisa morna no cabelo
leves ondulações na pele
quieta, deixo o tempo
que não passa, nem fica
esta paz nos pés
larga na cintura
balouçar na rede da tarde
a brisa morna no cabelo
leves ondulações na pele
quieta, deixo o tempo
que não passa, nem fica
mão em mão
in “caminhos do vento”
in “caminhos do vento”
8 de fevereiro de 2016
lua nova
Quando a lua nova chega
Posso enfim descansar
Largar as agruras das outras luas
Deitar-me no prado dos teus olhos
E dormir no ninho de penas suaves
Que construíste para mim
in "caminhos do vento"
5 de fevereiro de 2016
perigo
o que és?
esta paz nas ancas,
no ar do peito.
o que me fazes?
sei do perigo e não
o sinto,
só quietude.
in “caminhos do vento”
esta paz nas ancas,
no ar do peito.
o que me fazes?
sei do perigo e não
o sinto,
só quietude.
in “caminhos do vento”
14 de novembro de 2015
sombra na luz
a sombra manchada de luz
a luz enfeitada de sombra
a perfeição do imperfeito
a beleza do sombrio
in "árvores de mim"
a luz enfeitada de sombra
a perfeição do imperfeito
a beleza do sombrio
in "árvores de mim"
8 de novembro de 2015
fogueira de mim
Vem sentar-te à sombra da minha fogueira.
Sentir o fresco da noite das costas
e o calor de mim por todo o corpo
in "árvores de mim"
Sentir o fresco da noite das costas
e o calor de mim por todo o corpo
in "árvores de mim"
6 de novembro de 2015
flores dos cactos
A floresta rumoreja
em espasmos crescentes
Cresce e floresce
perante os meus olhos
como as flores dos cactos
Numa noite
nasce e morre, feliz.
em espasmos crescentes
Cresce e floresce
perante os meus olhos
como as flores dos cactos
Numa noite
nasce e morre, feliz.
in "árvores de mim"
10 de outubro de 2015
aspiração
Rios soltam risos e gorjeios
Correm velozes nas veias
da floresta
As árvores solenes
entretêm-se com a agitação
e aspiram a também ser rio
in "árvores de mim"
Correm velozes nas veias
da floresta
As árvores solenes
entretêm-se com a agitação
e aspiram a também ser rio
in "árvores de mim"
4 de outubro de 2015
histórias
As árvores sussurram
fantasias
Histórias inventadas
de princesas há muito mortas
Quem dera ser uma história
contada por mim
em alegres madrigais
fantasias
Histórias inventadas
de princesas há muito mortas
Quem dera ser uma história
contada por mim
em alegres madrigais
in "árvores de mim"
14 de setembro de 2015
dois
e se eu for outro?
serás tu?
estarás comigo
sendo mudado?
esta fluidez de ser
ou deixar de ser
a dança de equilíbrio
e transformação
de dois
in "caminhos do vento"
serás tu?
estarás comigo
sendo mudado?
esta fluidez de ser
ou deixar de ser
a dança de equilíbrio
e transformação
de dois
in "caminhos do vento"
1 de setembro de 2015
terra
Serei terra a ser arada
Alimento para prados
árvores e melros
Sentir a abundância
rica de abelhas e caracóis
a crescer de mim e em mim
Quero ser este meio
fecundo exuberante
Alimento para prados
árvores e melros
Sentir a abundância
rica de abelhas e caracóis
a crescer de mim e em mim
Quero ser este meio
fecundo exuberante
Um borbulhar de vida
Ininterrupta constante
prazerosa
in “árvores de mim”
Ininterrupta constante
prazerosa
in “árvores de mim”
14 de agosto de 2015
ser árvore
Árvore poderosa de mim
ligada ao fundo da terra
e a toda a floresta
por raízes fortes e intensas
Em ti, corre o alimento rico
trazido das profundezas
e criado do sol
Alquimia fluida
Rios de seiva percorrem
todo este corpo
ininterruptamente
Abraçam o vento, o sol
as tempestades geladas
Fluindo sempre
Sendo sempre árvore
Essa decisão não decidida
Simplesmente aceite
in “árvores de mim”
ligada ao fundo da terra
e a toda a floresta
por raízes fortes e intensas
Em ti, corre o alimento rico
trazido das profundezas
e criado do sol
Alquimia fluida
Rios de seiva percorrem
todo este corpo
ininterruptamente
Abraçam o vento, o sol
as tempestades geladas
Fluindo sempre
Sendo sempre árvore
Essa decisão não decidida
Simplesmente aceite
in “árvores de mim”
17 de julho de 2015
lago
Lagos serenos reflectem a lua
Uma brisa leve eriça as costas da água
em pequenos risos
Esta paz de estar aqui, neste lago
Eu e a lua, o silêncio cheio de som
in “árvores de mim”
Uma brisa leve eriça as costas da água
em pequenos risos
Esta paz de estar aqui, neste lago
Eu e a lua, o silêncio cheio de som
in “árvores de mim”
16 de julho de 2015
metal
O denso metal
Incandesce
E transforma-se
Derretido se espraia
Nos espaços vazios
Quente e meloso
Em risos se fica
in “árvores de mim”
Incandesce
E transforma-se
Derretido se espraia
Nos espaços vazios
Quente e meloso
Em risos se fica
in “árvores de mim”
12 de julho de 2015
quietude
A quietude da serenidade
sem esplendores de fogo
A tranquilidade das árvores
ligadas ao chão e ao céu
Riachos de seiva
percorrem estes corpos
inexoravelmente crescentes
com aparente lentidão
O propósito de ser
determinado e aceite
in “árvores de mim”
sem esplendores de fogo
A tranquilidade das árvores
ligadas ao chão e ao céu
Riachos de seiva
percorrem estes corpos
inexoravelmente crescentes
com aparente lentidão
O propósito de ser
determinado e aceite
in “árvores de mim”
19 de junho de 2015
casulo
quando me rasgarei por fim?
libertar-me deste casulo que me sufoca
quando deixarei de aguardar o mudar dos tempos
e dos terrores secretos.
nascer de novo transformada
esta impaciência por fim calma
in “memórias das pedras”
libertar-me deste casulo que me sufoca
quando deixarei de aguardar o mudar dos tempos
e dos terrores secretos.
nascer de novo transformada
esta impaciência por fim calma
in “memórias das pedras”
16 de junho de 2015
passado
o tempo passa inexorável
as marcas ficam em mim
cicatrizes que não aceito
o passado que não parece passar
de tão presente é
in “caminho das pedras”
as marcas ficam em mim
cicatrizes que não aceito
o passado que não parece passar
de tão presente é
in “caminho das pedras”
14 de junho de 2015
caminho das pedras
Volto de novo
aos velhos caminhos
As pedras
Anseio pela areia macia e quente
um trilho verdejante
um prado
Não estas pedras,
aguçadas
Rasgam os pés e o ânimo
in "caminho das pedras"
13 de junho de 2015
sem rumo
ventos me trazem
ventos me levam
ao sabor destas correntes
estranhas
parece vida sem rumo
será que existe um fim
será que é esse o caminho
o que vejo à minha volta
rodopiando nestes ventos
contraditórios
in “memórias das pedras”
11 de junho de 2015
oceano
De tanto dizer
já nada sobra
Um vazio
que parece paz
instala-se
Não é pacífico
este oceano
Dormente
contido. Irá
transbordar de novo
Enraivecido
in “memórias das pedras”
8 de junho de 2015
longe
Onde vão estas águas atrás dos meus olhos
Como saem de mim
Lavadas
Onde vão estes ventos inquietos e frios
Para longe de mim
Desterrados
in “memórias das pedras”
Como saem de mim
Lavadas
Onde vão estes ventos inquietos e frios
Para longe de mim
Desterrados
in “memórias das pedras”
28 de maio de 2015
ouriço
O meu pequeno ouriço
Eriçado, bola de picos
Partiu todos os espinhos
Agora, nu, dorme em paz
Num casulo laranja
Quente por fim
Eriçado, bola de picos
Partiu todos os espinhos
Agora, nu, dorme em paz
Num casulo laranja
Quente por fim
in "árvores de mim"
18 de maio de 2015
reserva
sem palavras me deixo ficar
apenas sinto
apenas sinto
a minha reserva
em relação ao mundo.
separada
qual o meu lugar?
quem me encontrará
neste local distante e ermo?
in "caminho das pedras"
em relação ao mundo.
separada
qual o meu lugar?
quem me encontrará
neste local distante e ermo?
in "caminho das pedras"
14 de maio de 2015
caminho das pedras
Tantos caminhos de pedras percorri
e eis-me de volta à caverna.
Nómada neste país de imóveis castelos
que me negam a entrada.
Onde irei morar?
Qual é o vento que me vai levar
ao destino de ser casa?
in "caminho das pedras"
10 de maio de 2015
quebrados
Triste por ti
Por mim
Pela vida que te parece cortada
Pelo imenso esforço
a corrigir os défices
Esforço inglório
permanente
a lutar contra joelhos quebrados
e mais...
Esta perda da tua vida
Como te vai ser difícil
construir e lutar ao mesmo tempo
No final, talvez a tristeza seja só minha
E consigas tu
ser e seguir
in "caminhos das pedras"
Por mim
Pela vida que te parece cortada
Pelo imenso esforço
a corrigir os défices
Esforço inglório
permanente
a lutar contra joelhos quebrados
e mais...
Esta perda da tua vida
Como te vai ser difícil
construir e lutar ao mesmo tempo
No final, talvez a tristeza seja só minha
E consigas tu
ser e seguir
in "caminhos das pedras"
6 de maio de 2015
amarras
Como seguir o meu vento
Se estou presa ao chão?
Cordas invisíveis, inexistentes,
Fortes como amarras
Seguram toda esta vontade
Como solto as velas?
Tenho de naufragar todos os barcos
Para poder voar.
in "caminho das pedras"
Se estou presa ao chão?
Cordas invisíveis, inexistentes,
Fortes como amarras
Seguram toda esta vontade
Como solto as velas?
Tenho de naufragar todos os barcos
Para poder voar.
in "caminho das pedras"
1 de maio de 2015
pele de água
Uma pele de água
pesada e interna
desmancha-se e cai
como um trapo velho
Ali fica a inundar os tornozelos
Uma enchente que não
para nem escorre
Continua a subir
até me afogar
em lodo e barcos vazios
in "caminho das pedras"
pesada e interna
desmancha-se e cai
como um trapo velho
Ali fica a inundar os tornozelos
Uma enchente que não
para nem escorre
Continua a subir
até me afogar
em lodo e barcos vazios
in "caminho das pedras"
20 de abril de 2015
tingida de ti
a tua cor tintada em mim
tingida dentro da pele
sou tão estranha sem esta cor
marcada de ti
a verdade é que me faltas
e todas as desculpas justificadas
não me servem
sapatos velhos e gastos
toalhas molhadas no chão
uma voz dentro de mim diz
que me faltas
no ar
tingida dentro da pele
sou tão estranha sem esta cor
marcada de ti
a verdade é que me faltas
e todas as desculpas justificadas
não me servem
sapatos velhos e gastos
toalhas molhadas no chão
uma voz dentro de mim diz
que me faltas
no ar
in "memórias do fogo"
15 de abril de 2015
vem
Meu vento, minha árvore
aqui te espero
Vem depressa,
arrebatar-me
do fogo deste dragão
Meu vento, minha árvore
brisa no coração
Leva-me a ver os mares distantes
Seres de encanto
Envolvida em nuvens
E chamas
in "caminhos do vento"
14 de abril de 2015
grito
Um grito tenta romper
esta lama espessa
e não sai da boca
Peixes a sufocar
ao lado da água
in "caminhos das pedras"
esta lama espessa
e não sai da boca
Peixes a sufocar
ao lado da água
in "caminhos das pedras"
1 de março de 2015
explodir
Prefiro dor intensa, a explodir
Pelo menos sinto, vivo
Em vez desta dor surda constante
Que me rouba, sem piedade, o sentido
in "o tigre e outras marés"
Pelo menos sinto, vivo
Em vez desta dor surda constante
Que me rouba, sem piedade, o sentido
in "o tigre e outras marés"
21 de fevereiro de 2015
compreendo os dias de cinza
Compreendo
finalmente os dias de cinza.
Compreendo com
outro sentir,
de fora, como
embaixadora
numa terra
deserta.
A missão de
explorar o mundo e compreender
os modos dos
outros.
Lamento os dias
da cinza.
Lamento o quebrar
dos ramos e o fogo devastador,
a impossibilidade
de criar uma floresta a partir da secura.
Nem uma pequena árvore
sequer, despida, com 3 folhas.
in "o tigre e outras marés"
19 de fevereiro de 2015
avé maria
avé maria cheia de graça
o senhor está contigo
bendita és entre as mulheres
bendito é o filho do teu ventre
pois foste a escolhida
maria, mãe de todos
intercede por nós
errantes, sem senhor,
sem bençãos e sem filhos
com as tuas mãos cura
a dor do mundo
agora e para sempre
ámen
in "o tigre e outras marés"
17 de fevereiro de 2015
rios de mim
![]() |
| SebastianWagner |
e nenhum deserto
espera por mim
para florir.
Apenas vazio e
rochas agrestes
que não querem a
minha água.
Onde irei
desembocar os meus rios?
As nascentes
borbulham de impaciência
contidas até ao
esmagamento
na espera, até
agora inútil,
de um vale que me
contenha.
in “o tigre e
outras marés”
13 de fevereiro de 2015
águas
Esta tristeza de
ti não sai de mim
Como largo esta
perda?
Perda de mim, das
fantásticas hipóteses do que poderia ter sido.
Perda de ti,
apesar de nem te ter.
Água escorre por
dentro do corpo
Sai pelos pés, de
tão cansada.
in “o tigre e
outras marés”
suave calmo
Suave suave és
Calmo calmo te sinto
E tudo o resto
É apenas minha invenção
Calmo calmo te sinto
E tudo o resto
É apenas minha invenção
in "memórias do fogo"
12 de fevereiro de 2015
11 de fevereiro de 2015
o tigre ferido
o tigre está
ferido
também ele
confunde esta dor com amor
o meu tigre
ronrona
deitado nos lençóis
verdes do prado
in “o tigre e outras marés”
10 de fevereiro de 2015
não me acompanha
o tigre voltou ao
fundo da selva
escondido na
caverna por mais mil anos
ou apenas umas
horas
voltou às sombras
este meu tigre
não me acompanha
fulvo, furtivo
apenas me toma de assalto
estraçalha e
abandona
no chão um resto
destroçado de mim
sem vida em vida
em inegável e
permanente dor
in “o tigre e
outras marés”
9 de fevereiro de 2015
o tigre espreita
o tigre espreita
emboscado
riscas em sombra
e luz
persegue-me por
eras
sinto o seu bafo
nos flancos
sem entender
de onde vem este
mal
num súbito relâmpago
sombra e luz
ataca
salta esmaga-me o
ar
garras rasgam
ossos em farpa,
esfacelada
coração latejando
sangue
o alívio final não
vem
ali fico em dor lancinante
até à eternidade
o meu tigre e eu
presos
neste ritual
infinito
a que estamos
obrigados
por motivos desconhecidos
in “o tigre e
outras marés”
8 de fevereiro de 2015
espadas
![]() |
| syrius |
esta dor
espadas que
cortam
abrem-me de cima a baixo
expondo o que?
apenas dor?
será que o
coração de dor
das igrejas é possível?
alma dorida
será que vai
terminar um dia?
não conheço
outros sinónimos para esta dor
nada se compara,
não há mais palavras
apenas dor.
in “o tigre e
outras marés”
24 de janeiro de 2015
sem sentir
Sem palavras me
deixo ficar
Apenas sentir a
minha reserva
Em relação ao
mundo
Separada
Afinal qual é o
perigo?
Prefiro a dor
intensa a explodir
Pelo menos sinto,
vivo
Em vez desta dor
surda constante
Que me rouba, sem
piedade, o sentido
in “o tigre e
outras marés”
23 de janeiro de 2015
sei de certeza que te vou perder
Sei de certeza
que te vou perder.
Tão certo,
como o movimento
dos planetas não poder ser parado,
ficar sem ti é um
facto.
Esta ideia volta
e volta, em cada vez mais pequenas elipses,
à medida que se
aproxima a hora.
Sei de certeza
que te vou perder.
E a tristeza de
perder quem nunca tive
é demais para o
meu tamanho.
Preciso do caminho
daqui para a lua e mais além
Como se perde o
que nunca se teve?
Como o calor do
sol, que também nunca me pertenceu,
Aqueces-me e estás
no meu céu.
Sem ti, será
noite de novo.
Sem estrelas e sem a dança dos astros,
a tristeza vai
atingir-me,
com a força extraordinária
das estrelas que explodem.
Os restos de mim,
espero,
que sejam
sementes para outro amor.
in “memórias do fogo”
22 de janeiro de 2015
impossibilidade
as
impossibilidades enchem-me de vazio.
se tudo o que sinto
for impossível,
o que resta?
não há mãos, nem
grilos,
nem sequer sapos.
in “o tigre e
outras marés”
21 de janeiro de 2015
20 de janeiro de 2015
tristeza
sangue
espesso quente viscoso
escorre em golfadas
do peito
lágrimas que os olhos não choram
in "o tigre e outras marés"
17 de janeiro de 2015
a tua cor
Da tua cor, a que mais amo
é esta,
rosa-salmão, suave e intensa,
em laivos de carmim luminoso,
um fogo ardendo
macio.
O calor desta
cor,
brilha escondido
aos olhos do mundo,
até de ti.
É esta cor que me
aquece e encanta.
Imagino as
infinitas possibilidades,
e perco-me nesse
mar de fantasia.
in “memórias do fogo”
16 de janeiro de 2015
a alegria de te ver
![]() |
| Irondoom |
a alegria de te
ver
como grilos
escondidos
nas noites de
verão
pequenos
sobressaltos de som
que tem
necessariamente de se manter
na sombra
in “memórias do fogo”
15 de janeiro de 2015
decisão
Gosto de sentir a
decisão formar-se
Crescer em
rumores internos
Gestos iniciados
leves
Por fim avançar
suavemente
Decidido
in “memórias do fogo”
14 de janeiro de 2015
simples gostar de ti
gosto das coisas
simples de ti.
gostava de mais.
mais coisas
simples,
para fazer
crescer
o quanto gosto de
ti.
in “memórias do fogo”
8 de janeiro de 2015
formadora de fogueiras
![]() |
| Irondoom |
Como alimentar um
pequeno fogo para que cresça
Assim estou eu
contigo
Formadora de
fogueiras
Atiçadora de
incêndios
Deixada para trás
Por um vento novo
Que leva
finalmente todo esse esplendor para longe
in “memórias do fogo”
6 de janeiro de 2015
corda
Apenas pedaços
sobram
Um sorriso
fugidio
Onde as
possibilidades moram
Uma inocência
macia
Alguma hesitação
Delicadeza
Pedaços de corda
ténue
Que me mantém
ligada a ti
in “memórias do fogo”
2 de janeiro de 2015
suspenso
Sublimar seria
importantemente útil
Dançar até todo o
tempo terminar
Ter essa alegria
de voar
O momento
suspenso eternamente
in “memórias do fogo”
14 de novembro de 2014
no ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me infiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.
Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa
8 de fevereiro de 2014
quando chega uma carta tua
Carta de Sigmund Freud a Martha Bernays, 9 de Outubro 1883 (excerto)
7 de fevereiro de 2014
retrato ardente
Robert Farber
Entre os teus lábios
é que a loucura acode
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.
Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"
Entre os teus lábios
é que a loucura acode
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.
Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"
2 de fevereiro de 2013
aquela triste e leda madrugada
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cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade,
quero que seja sempre celebrada.
Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se d`ua outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.
Ela só viu as lágrimas em fio,
que duns e doutros olhos derivadas,
s`acrescentaram em grande e largo rio;
Ela viu as palavras magoadas,
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso as almas condenadas.
Luís de Camões
6 de maio de 2011
compulsão
as mesmas palavras de que não gosto,
são o único modo de expressar estes pensamentos circulares.
tenho de os registar obrigatoriamente.
há tanto de mim já perdido
não suporto que mais estes pedaços caiam no esquecimento.
lembrar-me de mim, como fui,
o que acontece,
para que não me pareça que sou apenas uma fantasia
de alguém que já me esqueceu.
in “o tigre e outras marés”
5 de maio de 2011
belas palavras vazias
Não está em mim o
dom de entrelaçar palavras em harmoniosos hinos
de louvor a
qualquer coisa realmente maravilhosa.
Palavras bonitas,
belas frases recheadas de vazio,
aparentemente
suaves e dedicadas,
escondem a
crueldade agressiva da condescendência
disfarçada a
intenção enganadora de dominar.
Cada vez mais,
prefiro belos actos a belas palavras,
embora uns e
outros sejam passíveis de engano.
Mas é mais
possível continuar na infinita produção
de belas palavras
do que de belos actos.
Fazer é mais
difícil do que dizer e quem muito fala belas palavras
vive da preguiça
do pensamento alheio e da falta de esforço próprio
na autenticidade
de fazer coincidir as palavras com os actos
e o que
verdadeiramente é sentido.
in “o tigre e
outras marés”
20 de setembro de 2009
em braços
Gustav Klimt | The Kiss | 1907-8
abraçados assim
sem existir
sinto-te no peito
sem tempo
lugar de emoção
explodido
arrebatamento
cristalino
unida em ti
assim existo
asim enlaçada
para lá do tempo
dois somos um
finalmente
abraçados assim
sem existir
sinto-te no peito
sem tempo
lugar de emoção
explodido
arrebatamento
cristalino
unida em ti
assim existo
asim enlaçada
para lá do tempo
dois somos um
finalmente
19 de setembro de 2009
adeus
© Marques Tavares Carlos @ www.olhares.com
(pela intensidade do ser)
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tinhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade | Os Amantes sem Dinheiro | 1947-1949
(pela intensidade do ser)
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tinhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade | Os Amantes sem Dinheiro | 1947-1949
3 de janeiro de 2007
19 de dezembro de 2005
27 de outubro de 2005
o primeiro som
Joseph Haydn
Sinfonia n.º 94 em Sol Maior, segundo andamento: Andante
http://www.goclassic.co.kr/mp3/Haydn_Surprise_II.mp3
Sinfonia n.º 94 em Sol Maior, segundo andamento: Andante
http://www.goclassic.co.kr/mp3/Haydn_Surprise_II.mp3
16 de setembro de 2005
29 de julho de 2005
pai nosso
© Paulo A. @ www.olhares.com
Pai Nosso,
que estais nos céus
santificado seja o Vosso nome,
venha a nós o Vosso reino,
seja feita a Vossa vontade
assim na Terra como no Céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje,
perdoai-nos as nossas ofensas
assim como nós perdoamos
a quem nos tem ofendido
e não nos deixeis cair em tentação,
mas livrai-nos do mal.
Oração
26 de julho de 2005
chuva
(choveu, finalmente)
Chove uma grossa chuva inesperada
que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
duma vida que é chuva e não parece.
Chove, grossa e constante,
uma paz que há-de ser.
Uma gota invisível e distante
na janela, a escorrer.
Miguel Torga
Chove uma grossa chuva inesperada
que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
duma vida que é chuva e não parece.
Chove, grossa e constante,
uma paz que há-de ser.
Uma gota invisível e distante
na janela, a escorrer.
Miguel Torga
24 de julho de 2005
liberdade
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Sophia de Mello Breyner Andresen | Mar Novo | 1958
15 de julho de 2005
verão
(o verão que tarda em chegar)
XXII – Num dia de Verão
Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...
Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?
Quando o Verde me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...
XLI – No entardecer
No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah!, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos...
Mas graças a Deus que há imperfeição no mundo
Porque a imperfeição é uma coisa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma coisa a menos,
E deve haver muita coisa
Para termos muito que ver e ouvir...
Alberto Caeiro [Fernando Pessoa] | O Guardador de Rebanhos | 1914
XXII – Num dia de Verão
Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...
Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?
Quando o Verde me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...
XLI – No entardecer
No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah!, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos...
Mas graças a Deus que há imperfeição no mundo
Porque a imperfeição é uma coisa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma coisa a menos,
E deve haver muita coisa
Para termos muito que ver e ouvir...
Alberto Caeiro [Fernando Pessoa] | O Guardador de Rebanhos | 1914
14 de julho de 2005
escrito como vi
© vmdcc @ www.olhares.com
Uma brisa ligeira agita as folhas do salgueiro
os lótus de flores ébrias embebem-se de poente
nos montes distantes pálidas nuvens acariciam o céu ainda claro
a rapariga dos pós vermelhos tem seguramente doze, treze anos
docemente, ela recolhe uma canoa de nenúfares
Zhang Kejiu | Cinquenta"Xiaoling" | Trad. Albano Martins
Uma brisa ligeira agita as folhas do salgueiro
os lótus de flores ébrias embebem-se de poente
nos montes distantes pálidas nuvens acariciam o céu ainda claro
a rapariga dos pós vermelhos tem seguramente doze, treze anos
docemente, ela recolhe uma canoa de nenúfares
Zhang Kejiu | Cinquenta"Xiaoling" | Trad. Albano Martins
13 de julho de 2005
pensamento primaveril
O medo mistura-se ao prazer
enquanto ela sorri ao pensar que vai ao seu encontro
A caminho do lago o orvalho da montanha refresca-lhe as mangas de seda
Quem se habituaria a estas coisas ilícitas?
Somente o receio de faltar ao juramento secreto
leva com passos cautelosos ao quiosque de perfumes de brocado
Espreita, procura nos ruídos do vento
esconde-te à espera do amor perfumado
Ao pé do muro branco uma flor brinca com a sua sombra
Sob as persianas vermelhas o brilho disfarçado da lua
Docemente
com um sopro, a lâmpada apaga-se
Zhang Kejiu | Cinquenta"Xiaoling" | Trad. Albano Martins
12 de julho de 2005
e por vezes
© Angelica @ www.olhares.com
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.
David Mourão-Ferreira | Matura Idade | 1973
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.
David Mourão-Ferreira | Matura Idade | 1973
29 de junho de 2005
praia
© carlos duarte @ www.olhares.com
É agora. A água passa
liberta agulhas
despertas, tu
agora devagar
– pode ser –
começas.
A mão move
precisa os dedos eles
tocam como as agulhas
despertam
e é agora, de claridade
nos cegas.
A boca inicia
algo exacto
mas como a água passa
luz liberta
o beijo alarga em
clarão.
E manifesta-se
mais como as agulhas.
É já outro
habita nova morada.
Como o osso de um pardal
onde deus viveu
esta manhã.
É agora. A água passa
liberta agulhas
despertas, tu
agora devagar
– pode ser –
começas.
A mão move
precisa os dedos eles
tocam como as agulhas
despertam
e é agora, de claridade
nos cegas.
A boca inicia
algo exacto
mas como a água passa
luz liberta
o beijo alarga em
clarão.
E manifesta-se
mais como as agulhas.
É já outro
habita nova morada.
Como o osso de um pardal
onde deus viveu
esta manhã.
27 de junho de 2005
é a labareda da seda sob os dedos transmitida

© simplesmente maria @ www.olhares.com
(ainda Eugénio de Andrade)
É a labareda da seda sob os dedos transmitida
ao corpo todo, seda extraída ao segredo -
tocar e ser tocado, sentir em si
a ligeireza do fogo, a profundeza,
e estremecer, ficar em chaga:
e com dedos e sedas manter às labaredas, entre
terror e louvor
a comburente, combustível composição de tudo: ser
queimado vivo,
ser luminoso.
Herberto Hélder - "Uma prenda para Eugénio com algumas túlipas"
19 de junho de 2005
agradeço-te Deus por mais este espantoso
© Emanuel Couto @ www.olhares.com
i thank You God for most this amazing
day: for the leaping greenly spirits of trees
and a blue true dream of sky; and for everything
which is natural which is infinite which is yes
(i who have died am alive again today,
and this is the sun's birthday; this is the birth
day of life and of love and wings: and of the gay
great happening illimitably earth)
how should tasting touching hearing seeing
breathing any -lifted from the no
of all nothing - human merely being
doubt unimaginable You?
(now the ears of my ears awake and
now the eyes of my eyes are opened)
e.e. cummings
agradeço-te Deus por mais este espantoso
dia: pelos saltitantes esverdeados espíritos das árvores
e um azul verdade sonho de céu; e por tudo
que é natural, que é infinito, que é sim
(eu que morri estou hoje de novo vivo
e este é o dia de anos do sol; este é o nascente
dia da vida e do amor e das asas: e do alegre
grande acontecimento ilimitadamente terra)
como poderia saboreando tocando ouvindo lendo
respirando tudo - erguido do não
de todo o nada – humano meramente sendo,
duvidar inimaginável Tu?
(agora os ouvidos dos meus ouvidos despertam e
agora os olhos dos meus olhos estão abertos)
(tradução: doispontos)
i thank You God for most this amazing
day: for the leaping greenly spirits of trees
and a blue true dream of sky; and for everything
which is natural which is infinite which is yes
(i who have died am alive again today,
and this is the sun's birthday; this is the birth
day of life and of love and wings: and of the gay
great happening illimitably earth)
how should tasting touching hearing seeing
breathing any -lifted from the no
of all nothing - human merely being
doubt unimaginable You?
(now the ears of my ears awake and
now the eyes of my eyes are opened)
e.e. cummings
agradeço-te Deus por mais este espantoso
dia: pelos saltitantes esverdeados espíritos das árvores
e um azul verdade sonho de céu; e por tudo
que é natural, que é infinito, que é sim
(eu que morri estou hoje de novo vivo
e este é o dia de anos do sol; este é o nascente
dia da vida e do amor e das asas: e do alegre
grande acontecimento ilimitadamente terra)
como poderia saboreando tocando ouvindo lendo
respirando tudo - erguido do não
de todo o nada – humano meramente sendo,
duvidar inimaginável Tu?
(agora os ouvidos dos meus ouvidos despertam e
agora os olhos dos meus olhos estão abertos)
(tradução: doispontos)
17 de junho de 2005
na areia húmida
(sobre o «ermitar»)
A solidão verdadeira, quando a conhecerei de novo?
Vejo-me a caminhar à beira da água, embebido em mim mesmo.
Os meus pés deixam marcas na areia húmida, o meu cabelo
esvoaça suavemente ao vento do outono, brisa vinda de longe.
De mãos nos bolsos, eu sei que me afastei de tudo, do meu
destino e das cidades, dos pais e dos filhos que me couberam
para que também eu conhecesse o peso das palavras e do tempo.
Praia do Norte que chamas por mim, floresta densa
coberta de neve, quando virá enfim a manhã de novembro,
quando poderei caminhar na tua areia ensopada de sal?
Na véspera terei posto uma cruz nos dias que faltam
para que o mês termine. O sucesso da minha existência
terá deixado de interessar-me. De manhã saí de casa, era cedo,
como se fosse ao encontro da morte que espera por nós
na luz pálida de um dia igual aos outros.
João Camilo | A mala dos Marx Brothers | 1988
A solidão verdadeira, quando a conhecerei de novo?
Vejo-me a caminhar à beira da água, embebido em mim mesmo.
Os meus pés deixam marcas na areia húmida, o meu cabelo
esvoaça suavemente ao vento do outono, brisa vinda de longe.
De mãos nos bolsos, eu sei que me afastei de tudo, do meu
destino e das cidades, dos pais e dos filhos que me couberam
para que também eu conhecesse o peso das palavras e do tempo.
Praia do Norte que chamas por mim, floresta densa
coberta de neve, quando virá enfim a manhã de novembro,
quando poderei caminhar na tua areia ensopada de sal?
Na véspera terei posto uma cruz nos dias que faltam
para que o mês termine. O sucesso da minha existência
terá deixado de interessar-me. De manhã saí de casa, era cedo,
como se fosse ao encontro da morte que espera por nós
na luz pálida de um dia igual aos outros.
João Camilo | A mala dos Marx Brothers | 1988
15 de junho de 2005
as bolas de sabão
As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.
Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.
Alberto Caeiro | O Guardador de Rebanhos | 13-03-1914
13 de junho de 2005
adeus
Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos,
carregada de flor e dos teus dedos;
como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve, e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.
Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.
Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.
Eugénio de Andrade | As palavras Interditas | 1950-1951
(em memória de Eugénio de Andrade)
6 de junho de 2005
não são as amoras
© António Manuel Pinto da Silva @ www.olhares.com
Não são as amoras
que se elevam
não,
mas os olhos que nelas caem.
Nem é o peito
que se ergue
não,
mas as mãos que aí mergulham.
Não é a água
que no corpo salta
não,
mas o faro desperto que a bebe.
Nem é a manhã
que da alegria fala,
não,
mas a luz da noite que a escreve.
Não é o instante
que se declara
não,
mas a eternidade que o manteve.
No teu peito de amoras
a água aviva uma luz absurda.
Guarda o cheiro inesquecível do tempo.
(em celebração da xi)
Não são as amoras
que se elevam
não,
mas os olhos que nelas caem.
Nem é o peito
que se ergue
não,
mas as mãos que aí mergulham.
Não é a água
que no corpo salta
não,
mas o faro desperto que a bebe.
Nem é a manhã
que da alegria fala,
não,
mas a luz da noite que a escreve.
Não é o instante
que se declara
não,
mas a eternidade que o manteve.
No teu peito de amoras
a água aviva uma luz absurda.
Guarda o cheiro inesquecível do tempo.
(em celebração da xi)
27 de abril de 2005
o beijo da cereja
Quisera eu ser uma cereja,
nascida do branco e do verde,
aquecida ao sol, refrescada ao vento.
Crescendo encarnada
como os teus lábios.
Virás provar-me
e eu te provarei.
20 de abril de 2005
preparo os dias da cinza
«porque tu és pó e ao pó voltarás»
BÍBLIA, Génesis, 3-19
Preparo os dias da cinza.
Os tempos sem sobressalto.
A terra árida onde apenas o vento
dispersa a inutilidade das ervas.
Aguardo o silêncio fundo
das vozes que não se ouvem.
A sobra, a escuta inútil
de uma alegria perdida.
Agradeço os dias da cinza
o tempo do coração inerte.
Nele guarda-se o fogo
que nem o desejo alcança.
Espero no pó das brasas extintas
o ressurgir de uma chama,
escondida e de novo acesa
no mais frio dos dias da cinza.
BÍBLIA, Génesis, 3-19
Preparo os dias da cinza.
Os tempos sem sobressalto.
A terra árida onde apenas o vento
dispersa a inutilidade das ervas.
Aguardo o silêncio fundo
das vozes que não se ouvem.
A sobra, a escuta inútil
de uma alegria perdida.
Agradeço os dias da cinza
o tempo do coração inerte.
Nele guarda-se o fogo
que nem o desejo alcança.
Espero no pó das brasas extintas
o ressurgir de uma chama,
escondida e de novo acesa
no mais frio dos dias da cinza.
5 de abril de 2005
sob os teus pés
He Wishes for the Cloths of Heaven
Had I the heavens' embroidered cloths
Enwrought with golden and silver light
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams
I have spread my dreams under your feet
Tread softly because you tread on my dreams.
W. B. Yeats
Sob os teus pés
Tivesse eu as bordadas vestes do paraíso
tecidas com a luz do ouro e da prata
o azul e o sombrio e os negros trajes
da noite e luz e da média luz
Eu espalharia essas roupas sob os teus pés:
Mas, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos
Tenho espalhado os meus sonhos sob os teus pés
Pisa suavemente,
porque caminhas sobre os meus sonhos.
(Tradução: doispontos)
Had I the heavens' embroidered cloths
Enwrought with golden and silver light
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams
I have spread my dreams under your feet
Tread softly because you tread on my dreams.
W. B. Yeats
Sob os teus pés
Tivesse eu as bordadas vestes do paraíso
tecidas com a luz do ouro e da prata
o azul e o sombrio e os negros trajes
da noite e luz e da média luz
Eu espalharia essas roupas sob os teus pés:
Mas, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos
Tenho espalhado os meus sonhos sob os teus pés
Pisa suavemente,
porque caminhas sobre os meus sonhos.
(Tradução: doispontos)
3 de abril de 2005
o fogo anima
(pela benção do fogo que não morre)
coberto de águas
e de meses
esperando o que não terá fim
o fogo anima
João Miguel Fernandes Jorge
coberto de águas
e de meses
esperando o que não terá fim
o fogo anima
João Miguel Fernandes Jorge
31 de março de 2005
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