15 de junho de 2005

as bolas de sabão 


As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.

Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

Alberto Caeiro | O Guardador de Rebanhos | 13-03-1914



1 comentário:

doispontos disse...

Como nada é por acaso, ontem ao entardecer dei comigo a passear. Nada mais me ocupava o espírito senão as coisas sem importância em que nunca reparamos. Não eram bolas de sabão, mas podiam ser. Não eram mais do que pareciam ser. Mas ajudaram-me a aceitar tudo mais nitidamente.

bem bonito, no tempo certo, o tempo de aceitar nitidamente.

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