20 de abril de 2005

preparo os dias da cinza

«porque tu és pó e ao pó voltarás»
BÍBLIA, Génesis, 3-19

Preparo os dias da cinza.
Os tempos sem sobressalto.
A terra árida onde apenas o vento
dispersa a inutilidade das ervas.
Aguardo o silêncio fundo
das vozes que não se ouvem.
A sobra, a escuta inútil
de uma alegria perdida.

Agradeço os dias da cinza
o tempo do coração inerte.
Nele guarda-se o fogo
que nem o desejo alcança.
Espero no pó das brasas extintas
o ressurgir de uma chama,
escondida e de novo acesa
no mais frio dos dias da cinza.



3 comentários:

deNeve disse...

A história não conta quantas vezes a fénix renasceu das próprias tintas. E o Grande Oleiro garante-nos que retornaremos ao pó... mas nada diz sobre a transformação dele em novo barro, em nova Vida.

Sim, há sempre uma centelha que sobra, um "coração inerte" que tem sempre uma pequenina chama residual, que podemos não sentir existir, mas está lá para despertar quando menos esperamos... e maior parece a chama que renasce.

[Será que à Bíblia falta um último livro, que roube o espaço ao Apocalipse... ReGenesis, por exemplo?]

linfócittos disse...

Do ponto de vista romântico... uma bela metáfora!
Do ponto de vista poético... excepcionalmente bem escrito e limpo!
Do ponto de vista estético... perfeito!
Agora, do ponto de vista antropológico e culturalmente falando...
Interessante... e não merecem palavras menos profundas ou inúteis.

Anónimo disse...

Do ponto de vista antropológico e culturalmente falando nada tenho a dizer. Um nada que é nada.
Agora há o que importa no poema: uma intensa esperança de redenção (não de ressurreição).
Também eu agradeço os dias da cinza, da cinza bem escrita, bem morta, bem viva.
Também eu inanimar-me-ei (até ao último linfócito) para viver. Com um outro vento. Com um outro silêncio.
Muito curioso: não me importaria de ter estas palavras inscritas sobre a minha lápide tumular.
Joaquim