13 de junho de 2005

adeus


Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos,
carregada de flor e dos teus dedos;

como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve, e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.

Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.

Eugénio de Andrade | As palavras Interditas | 1950-1951
(em memória de Eugénio de Andrade)



2 comentários:

tim disse...

Agradeço-te muito este poema, de homenagem ao poeta que morreu e também de evocação à vida.

Deixo-te este, que cantando largamente um país, encerra um código secreto cuja chave te pertence.

AS AMORAS

O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

(Eugénio de Andrade)

:

linfócittos disse...

A notícia de que Eugénio de Andrade nos deixava foi «como se houvesse uma tempestade» - mas foi-o, com certeza, unicamente num primeiro segundo irreflectido.
A plenitude da consciência assegura-nos que os Poetas nunca morrem para os esfomeados da utopia.
Os Poetas não são gente. São «a voz» do delírio de cada um e sempre que os lemos acontece como no poema de "As Palavras Interditas" que seleccionaram: os poetas são «as noites que vêm e nos levam».