3 de julho de 2016

sem fé

não existes
uma nuvem fugidia
todos os esforços de te alcançar
terminam em dor
exausta, sem fé
tanta vontade gasta
em encontrar nada
perdida de novo

2 de julho de 2016

tortura

a tortura imparável 
da solidão
rói os ossos e a pele
a carne derrama-se 
em águas sem fim

in "o tigre e outras marés"

30 de junho de 2016

ar

inspiro e o ar não entra
expiro e o ar não sai

que faço agora?

já não tenho mais corpo
cortado de novo
sem respirar

29 de abril de 2016

ondas

um mundo de água por dentro

uma fina capa apenas mantém a forma
onde crescem peixes do ar e unicórnios de flores

balança numa ginga ritmada
ao som das voltas em torno do sol

balança a água
ondas sobem e baixam

balançam os peixes e os unicórnios
as flores, as ondas sobem e baixam

sobe uma onda, quebra a fina capa
a água espalha-se pelo vazio

espaço ocupado agora



no "mundo d'água"

14 de abril de 2016

gota a gota

gotas rosa e laranja
caem sobre a minha pele
devagar dissolvem a fina capa
e espalham-se por todos os recantos
em ondas de amor e cheiro de canela


no "mundo d'água"

13 de abril de 2016

31 de março de 2016

30 de março de 2016

28 de março de 2016

mãos

pelas tuas mãos passa a minha pele

e por elas,
não sei o que fazer das minhas



in "terra em mim"

23 de março de 2016

terra

paro o vento, o fogo, as marés
afundo

fundo-me na terra

apenas sinto



in "terra em mim"

22 de março de 2016

toque

tempo suspenso
um toque que mal toca
na intensidade e
respiração profunda
transmutação da pele

in "terra em mim"

8 de março de 2016

rotina

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade

1 de março de 2016

Lembra-me um sonho lindo

Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada

Canta, rouxinol, canta, não me dês penas
Cresce, girassol, cresce entre açucenas
Afaga-me o corpo todo, se te pertenço
Rasga-me o ventre ardendo em fumo de incenso

Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada

Ai! Como eu te quero! Ai! De madrugada!
Ai! Alma da terra! Ai! Linda, assim deitada!
Ai! Como eu te amo! Ai! Tão sossegada!
Ai! Beijo-te o corpo! Ai! Seara tão desejada!

Fausto Bordalo Dias, letra "Lembra-me um sonho lindo" in "Por este Rio Acima"

18 de fevereiro de 2016

o que há em mim é sobretudo cansaço


O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

15 de fevereiro de 2016

nada


nada
vazio

absolutamente nada




até o vazio entre galáxias está pleno de ligações





in "caminho das pedras"

13 de fevereiro de 2016

verde esmeralda



Vento vagabundo
Rumores de folhas e águas correntes,
aroma de chuva e terra
Raízes profundas
entrelaçadas em mim
atentas, pulsantes.
Verde esmeralda,
húmido, suave e quente
Que me leva.

in "caminhos do vento"

10 de fevereiro de 2016

vem sentar-te comigo

d'aprés kenglye


vem sentar-te comigo, querido
à beira rio
sentir
a água passar debaixo dos pés
o calor do sol nos tornozelos
vem sentar-te comigo, querido
a ver os peixes preguiçarem.
sons de sapos e ovelhas
o dia que não termina e, contudo, se move.

in “caminhos do vento”

9 de fevereiro de 2016

sossego

o sossego não me larga
esta paz nos pés
larga na cintura
balouçar na rede da tarde
a brisa morna no cabelo
leves ondulações na pele
quieta, deixo o tempo
que não passa, nem fica

mão em mão

in “caminhos do vento”

8 de fevereiro de 2016

lua nova



Quando a lua nova chega
Posso enfim descansar
Largar as agruras das outras luas
Deitar-me no prado dos teus olhos
E dormir no ninho de penas suaves
Que construíste para mim

in "caminhos do vento"

5 de fevereiro de 2016

perigo

o que és?
esta paz nas ancas,
no ar do peito.
o que me fazes?
sei do perigo e não
o sinto,
só quietude.

in “caminhos do vento”

14 de novembro de 2015

sombra na luz

a sombra manchada de luz
a luz enfeitada de sombra
a perfeição do imperfeito
a beleza do sombrio

in "árvores de mim"

8 de novembro de 2015

fogueira de mim

Vem sentar-te à sombra da minha fogueira.
Sentir o fresco da noite das costas
e o calor de mim por todo o corpo

in "árvores de mim"

6 de novembro de 2015

flores dos cactos

A floresta rumoreja
em espasmos crescentes
Cresce e floresce
perante os meus olhos
como as flores dos cactos
Numa noite
nasce e morre, feliz.

in "árvores de mim"

10 de outubro de 2015

aspiração

Rios soltam risos e gorjeios
Correm velozes nas veias
da floresta
As árvores solenes
entretêm-se com a agitação
e aspiram a também ser rio

in "árvores de mim"

4 de outubro de 2015

histórias

As árvores sussurram
fantasias
Histórias inventadas
de princesas há muito mortas
Quem dera ser uma história
contada por mim
em alegres madrigais

in "árvores de mim"

14 de setembro de 2015

dois

e se eu for outro?
serás tu?
estarás comigo
sendo mudado?
esta fluidez de ser
ou deixar de ser
a dança de equilíbrio
e transformação
de dois

in "caminhos do vento"

1 de setembro de 2015

terra

Serei terra a ser arada
Alimento para prados
árvores e melros
Sentir a abundância
rica de abelhas e caracóis
a crescer de mim e em mim
Quero ser este meio
fecundo exuberante
Um borbulhar de vida
Ininterrupta constante
prazerosa

in “árvores de mim”

14 de agosto de 2015

ser árvore

Árvore poderosa de mim
ligada ao fundo da terra
e a toda a floresta
por raízes fortes e intensas
Em ti, corre o alimento rico
trazido das profundezas
e criado do sol
Alquimia fluida
Rios de seiva percorrem
todo este corpo
ininterruptamente
Abraçam o vento, o sol
as tempestades geladas
Fluindo sempre
Sendo sempre árvore
Essa decisão não decidida
Simplesmente aceite

in “árvores de mim”

17 de julho de 2015

lago

Lagos serenos reflectem a lua
Uma brisa leve eriça as costas da água
em pequenos risos
Esta paz de estar aqui, neste lago
Eu e a lua, o silêncio cheio de som

in “árvores de mim”

16 de julho de 2015

metal

O denso metal
Incandesce
E transforma-se
Derretido se espraia
Nos espaços vazios
Quente e meloso
Em risos se fica

in “árvores de mim”

12 de julho de 2015

quietude

A quietude da serenidade
sem esplendores de fogo
A tranquilidade das árvores
ligadas ao chão e ao céu
Riachos de seiva
percorrem estes corpos
inexoravelmente crescentes
com aparente lentidão
O propósito de ser
determinado e aceite

in “árvores de mim”

19 de junho de 2015

casulo

quando me rasgarei por fim?
libertar-me deste casulo que me sufoca
quando deixarei de aguardar o mudar dos tempos
e dos terrores secretos.
nascer de novo transformada
esta impaciência por fim calma

in “memórias das pedras”

16 de junho de 2015

passado

o tempo passa inexorável
as marcas ficam em mim
cicatrizes que não aceito
o passado que não parece passar
de tão presente é

in “caminho das pedras”

14 de junho de 2015

caminho das pedras


Volto de novo
aos velhos caminhos
As pedras
Anseio pela areia macia e quente
um trilho verdejante
um prado
Não estas pedras,
aguçadas
Rasgam os pés e o ânimo

in "caminho das pedras"

13 de junho de 2015

sem rumo


ventos me trazem
ventos me levam
ao sabor destas correntes
estranhas
parece vida sem rumo
será que existe um fim
será que é esse o caminho
o que vejo à minha volta
rodopiando nestes ventos
contraditórios

in “memórias das pedras”

11 de junho de 2015

oceano


De tanto dizer
já nada sobra
Um vazio
que parece paz
instala-se
Não é pacífico
este oceano
Dormente
contido. Irá
transbordar de novo
Enraivecido

in “memórias das pedras”

8 de junho de 2015

longe

Onde vão estas águas atrás dos meus olhos
Como saem de mim
Lavadas
Onde vão estes ventos inquietos e frios
Para longe de mim
Desterrados

in “memórias das pedras”

28 de maio de 2015

ouriço

O meu pequeno ouriço
Eriçado, bola de picos
Partiu todos os espinhos
Agora, nu, dorme em paz
Num casulo laranja
Quente por fim

in "árvores de mim"

18 de maio de 2015

reserva

sem palavras me deixo ficar
apenas sinto 
a minha reserva
em relação ao mundo.
separada
qual o meu lugar?
quem me encontrará
neste local distante e ermo?

in "caminho das pedras"

14 de maio de 2015

caminho das pedras


Tantos caminhos de pedras percorri
e eis-me de volta à caverna.
Nómada neste país de imóveis castelos
que me negam a entrada.
Onde irei morar?
Qual é o vento que me vai levar
ao destino de ser casa?

in "caminho das pedras"

10 de maio de 2015

quebrados

Triste por ti
Por mim
Pela vida que te parece cortada
Pelo imenso esforço
a corrigir os défices
Esforço inglório
permanente
a lutar contra joelhos quebrados
e mais...
Esta perda da tua vida
Como te vai ser difícil
construir e lutar ao mesmo tempo
No final, talvez a tristeza seja só minha
E consigas tu
ser e seguir

in "caminhos das pedras"

6 de maio de 2015

amarras

Como seguir o meu vento
Se estou presa ao chão?
Cordas invisíveis, inexistentes,
Fortes como amarras
Seguram toda esta vontade
Como solto as velas?
Tenho de naufragar todos os barcos
Para poder voar.

in "caminho das pedras"

1 de maio de 2015

pele de água

Uma pele de água
pesada e interna
desmancha-se e cai
como um trapo velho
Ali fica a inundar os tornozelos
Uma enchente que não
para nem escorre
Continua a subir
até me afogar
em lodo e barcos vazios

in "caminho das pedras"

20 de abril de 2015

tingida de ti

a tua cor tintada em mim
tingida dentro da pele
sou tão estranha sem esta cor
marcada de ti
a verdade é que me faltas
e todas as desculpas justificadas
não me servem
sapatos velhos e gastos
toalhas molhadas no chão
uma voz dentro de mim diz
que me faltas
no ar

in "memórias do fogo"

15 de abril de 2015

vem


Meu vento, minha árvore
aqui te espero
Vem depressa,
arrebatar-me
do fogo deste dragão
Meu vento, minha árvore
brisa no coração
Leva-me a ver os mares distantes
Seres de encanto
Envolvida em nuvens
E chamas

in "caminhos do vento"

14 de abril de 2015

grito

Um grito tenta romper
esta lama espessa
e não sai da boca
Peixes a sufocar
ao lado da água

in "caminhos das pedras"

1 de março de 2015

explodir

Prefiro dor intensa, a explodir
Pelo menos sinto, vivo
Em vez desta dor surda constante
Que me rouba, sem piedade, o sentido

in "o tigre e outras marés"

21 de fevereiro de 2015

compreendo os dias de cinza



Compreendo finalmente os dias de cinza.
Compreendo com outro sentir,
de fora, como embaixadora
numa terra deserta.
A missão de explorar o mundo e compreender
os modos dos outros.
Lamento os dias da cinza.
Lamento o quebrar dos ramos e o fogo devastador,
a impossibilidade de criar uma floresta a partir da secura.
Nem uma pequena árvore sequer, despida, com 3 folhas.

in "o tigre e outras marés"

19 de fevereiro de 2015

avé maria


avé maria cheia de graça
o senhor está contigo
bendita és entre as mulheres
bendito é o filho do teu ventre
pois foste a escolhida

maria, mãe de todos
intercede por nós
errantes, sem senhor,
sem bençãos e sem filhos

com as tuas mãos cura
a dor do mundo
agora e para sempre
ámen

in "o tigre e  outras marés"

17 de fevereiro de 2015

rios de mim


SebastianWagner
Tenho tantos rios para dar
e nenhum deserto espera por mim
para florir.
Apenas vazio e rochas agrestes
que não querem a minha água.
Onde irei desembocar os meus rios?
As nascentes borbulham de impaciência
contidas até ao esmagamento
na espera, até agora inútil,
de um vale que me contenha.

in “o tigre e outras marés”

13 de fevereiro de 2015

águas



Esta tristeza de ti não sai de mim
Como largo esta perda?
Perda de mim, das fantásticas hipóteses do que poderia ter sido.
Perda de ti, apesar de nem te ter.
Água escorre por dentro do corpo
Sai pelos pés, de tão cansada.

in “o tigre e outras marés”

suave calmo

Suave suave és
Calmo calmo te sinto
E tudo o resto
É apenas minha invenção

in "memórias do fogo"

12 de fevereiro de 2015

riscas






a sombra manchada de luz
a luz enfeitada de sombra

in “o tigre e outras marés”

11 de fevereiro de 2015

o tigre ferido



o tigre está ferido
também ele
confunde esta dor com amor

o meu tigre ronrona
deitado nos lençóis verdes do prado

in “o tigre e outras marés”

10 de fevereiro de 2015

não me acompanha



o tigre voltou ao fundo da selva
escondido na caverna por mais mil anos
ou apenas umas horas
voltou às sombras

este meu tigre não me acompanha
fulvo, furtivo apenas me toma de assalto
estraçalha e abandona
no chão um resto destroçado de mim
sem vida em vida
em inegável e permanente dor

in “o tigre e outras marés”



9 de fevereiro de 2015

o tigre espreita



o tigre espreita
emboscado
riscas em sombra e luz

persegue-me por eras

sinto o seu bafo nos flancos
sem entender
de onde vem este mal

num súbito relâmpago
sombra e luz ataca
salta esmaga-me o ar
garras rasgam
ossos em farpa, esfacelada
coração latejando sangue
o alívio final não vem
ali fico em dor lancinante
até à eternidade

o meu tigre e eu presos
neste ritual infinito
a que estamos obrigados
por motivos desconhecidos

in “o tigre e outras marés”

8 de fevereiro de 2015

espadas

syrius


esta dor
espadas que cortam
abrem-me de  cima a baixo
expondo o que?
apenas dor?
será que o coração de dor
das igrejas é possível?
alma dorida
será que vai terminar um dia?
não conheço outros sinónimos para esta dor
nada se compara, não há mais palavras
apenas dor.

in “o tigre e outras marés”

24 de janeiro de 2015

sem sentir



Sem palavras me deixo ficar
Apenas sentir a minha reserva
Em relação ao mundo
Separada
Afinal qual é o perigo?

Prefiro a dor intensa a explodir
Pelo menos sinto, vivo
Em vez desta dor surda constante
Que me rouba, sem piedade, o sentido

in “o tigre e outras marés”

23 de janeiro de 2015

sei de certeza que te vou perder



Sei de certeza que te vou perder.
Tão certo,
como o movimento dos planetas não poder ser parado,
ficar sem ti é um facto.
Esta ideia volta e volta, em cada vez mais pequenas elipses,
à medida que se aproxima a hora.
Sei de certeza que te vou perder.
E a tristeza de perder quem nunca tive
é demais para o meu tamanho.
Preciso do caminho daqui para a lua e mais além
Como se perde o que nunca se teve?
Como o calor do sol, que também nunca me pertenceu,
Aqueces-me e estás no meu céu.
Sem ti, será noite de novo.
Sem estrelas e sem a dança dos astros,
a tristeza vai atingir-me,
com a força extraordinária das estrelas que explodem.
Os restos de mim, espero,
que sejam sementes para outro amor.

in “memórias do fogo”

22 de janeiro de 2015

impossibilidade



as impossibilidades enchem-me de vazio.
se tudo o que sinto for impossível,
o que resta?
não há mãos, nem grilos,
nem sequer sapos.

in “o tigre e outras marés”

20 de janeiro de 2015

tristeza


sangue
espesso quente viscoso
escorre em golfadas
do peito

lágrimas que os olhos não choram

in "o tigre e outras marés"


17 de janeiro de 2015

a tua cor



Da tua cor, a que mais amo
é esta, rosa-salmão, suave e intensa,
em laivos de carmim luminoso,
um fogo ardendo macio.
O calor desta cor, 
brilha escondido aos olhos do mundo,
até de ti.
É esta cor que me aquece e encanta.
Imagino as infinitas possibilidades,
e perco-me nesse mar de fantasia.

in “memórias do fogo”

16 de janeiro de 2015

a alegria de te ver

Irondoom


a alegria de te ver
como grilos escondidos
nas noites de verão
pequenos sobressaltos de som
que tem necessariamente de se manter
na sombra

in “memórias do fogo”

15 de janeiro de 2015

decisão



Gosto de sentir a decisão formar-se
Crescer em rumores internos
Gestos iniciados leves
Por fim avançar suavemente
Decidido

in “memórias do fogo”

14 de janeiro de 2015

simples gostar de ti


gosto das coisas simples de ti.
gostava de mais.
mais coisas simples,
para fazer crescer
o quanto gosto de ti.

in “memórias do fogo”

8 de janeiro de 2015

formadora de fogueiras

Irondoom


Como alimentar um pequeno fogo para que cresça
Assim estou eu contigo
Formadora de fogueiras
Atiçadora de incêndios
Deixada para trás
Por um vento novo
Que leva finalmente todo esse esplendor para longe

in “memórias do fogo”

6 de janeiro de 2015

corda



Apenas pedaços sobram
Um sorriso fugidio
Onde as possibilidades moram
Uma inocência macia
Alguma hesitação
Delicadeza
Pedaços de corda ténue
Que me mantém ligada a ti

in “memórias do fogo”


2 de janeiro de 2015

suspenso



Sublimar seria importantemente útil
Dançar até todo o tempo terminar
Ter essa alegria de voar
O momento suspenso eternamente

in “memórias do fogo”

14 de novembro de 2014

no ciclo eterno das mudáveis coisas


No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me infiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

8 de fevereiro de 2014

quando chega uma carta tua


Quando chega uma carta tua todas as divagações acabam, e acordo para a vida. Todos os problemas estranhos deixam de ter importância, os misteriosos quadros de doenças se desvanecem, e acabam-se as teorias vazias «de acordo com o estado presente da ciência», como elas são chamadas. Então o mundo fica tão acolhedor, tão alegre, tão fácil de compreender. A minha doce querida não é uma ilusão, ela não tem que ser comprovada por testes químicos; de facto ela pode ser observada a olho nú. Ainda bem que ela não tem nada a ver com doenças – e espero que continue – excepto por ter sido suficientemente imprudente para tomar um médico para amante. Oh Marty, é muito mais gratificante ser um ser humano em vez de um armazém de certas experiências monótonas. Mas ninguém se pode permitir a ser um ser humano por uma hora a não ser que tenha sido uma máquina ou um armazém por onze horas. E aqui chegámos, onde começámos.

Carta de Sigmund Freud a Martha Bernays, 9 de Outubro 1883 (excerto)

7 de fevereiro de 2014

retrato ardente

Robert Farber


Entre os teus lábios
é que a loucura acode
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"

2 de fevereiro de 2013

aquela triste e leda madrugada


Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade,
quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se d`ua outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
que duns e doutros olhos derivadas,
s`acrescentaram em grande e largo rio;

Ela viu as palavras magoadas,
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso as almas condenadas.

Luís de Camões

6 de maio de 2011

compulsão



toda esta produção compulsiva de palavras,
as mesmas palavras de que não gosto,
são o único modo de expressar estes pensamentos circulares.
tenho de os registar obrigatoriamente.
há tanto de mim já perdido
não suporto que mais estes pedaços caiam no esquecimento.
lembrar-me de mim, como fui,
o que acontece,
para que não me pareça que sou apenas uma fantasia
de alguém que já me esqueceu.

in “o tigre e outras marés”

5 de maio de 2011

belas palavras vazias



Não está em mim o dom de entrelaçar palavras em harmoniosos hinos
de louvor a qualquer coisa realmente maravilhosa.
Palavras bonitas, belas frases recheadas de vazio,
aparentemente suaves e dedicadas,
escondem a crueldade agressiva da condescendência
disfarçada a intenção enganadora de dominar.

Cada vez mais, prefiro belos actos a belas palavras,
embora uns e outros sejam passíveis de engano.
Mas é mais possível continuar na infinita produção
de belas palavras do que de belos actos.

Fazer é mais difícil do que dizer e quem muito fala belas palavras
vive da preguiça do pensamento alheio e da falta de esforço próprio
na autenticidade de fazer coincidir as palavras com os actos
e o que verdadeiramente é sentido.

in “o tigre e outras marés”

20 de setembro de 2009

em braços

Gustav Klimt | The Kiss | 1907-8



abraçados assim
                           sem existir

sinto-te no peito
                           sem tempo

lugar de emoção
                           explodido

arrebatamento
                       cristalino

unida em ti
                   assim existo

asim enlaçada
                        para lá do tempo

dois somos um
                         finalmente



19 de setembro de 2009

adeus

© Marques Tavares Carlos @ www.olhares.com

(pela intensidade do ser)

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tinhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade | Os Amantes sem Dinheiro | 1947-1949



16 de setembro de 2005

29 de julho de 2005

pai nosso

 
© Paulo A. @ www.olhares.com

Pai Nosso,
que estais nos céus
santificado seja o Vosso nome,
venha a nós o Vosso reino,
seja feita a Vossa vontade
assim na Terra como no Céu.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje,
perdoai-nos as nossas ofensas
assim como nós perdoamos
a quem nos tem ofendido
e não nos deixeis cair em tentação,
mas livrai-nos do mal.

Oração



26 de julho de 2005

chuva

(choveu, finalmente)

Chove uma grossa chuva inesperada
que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
duma vida que é chuva e não parece.
Chove, grossa e constante,
uma paz que há-de ser.
Uma gota invisível e distante
na janela, a escorrer.

Miguel Torga



24 de julho de 2005

liberdade


Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen | Mar Novo | 1958



15 de julho de 2005

verão

(o verão que tarda em chegar)

XXII – Num dia de Verão

Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...

Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?

Quando o Verde me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...


XLI – No entardecer

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...

Ah!, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos...

Mas graças a Deus que há imperfeição no mundo
Porque a imperfeição é uma coisa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma coisa a menos,
E deve haver muita coisa
Para termos muito que ver e ouvir...

Alberto Caeiro [Fernando Pessoa] | O Guardador de Rebanhos | 1914



14 de julho de 2005

escrito como vi

© vmdcc @ www.olhares.com

Uma brisa ligeira agita as folhas do salgueiro
os lótus de flores ébrias embebem-se de poente
nos montes distantes pálidas nuvens acariciam o céu ainda claro
a rapariga dos pós vermelhos tem seguramente doze, treze anos
docemente, ela recolhe uma canoa de nenúfares

Zhang Kejiu | Cinquenta"Xiaoling" | Trad. Albano Martins



13 de julho de 2005

pensamento primaveril


O medo mistura-se ao prazer
enquanto ela sorri ao pensar que vai ao seu encontro
A caminho do lago o orvalho da montanha refresca-lhe as mangas de seda
Quem se habituaria a estas coisas ilícitas?
Somente o receio de faltar ao juramento secreto
leva com passos cautelosos ao quiosque de perfumes de brocado
Espreita, procura nos ruídos do vento
esconde-te à espera do amor perfumado
Ao pé do muro branco uma flor brinca com a sua sombra
Sob as persianas vermelhas o brilho disfarçado da lua
Docemente
com um sopro, a lâmpada apaga-se

Zhang Kejiu | Cinquenta"Xiaoling" | Trad. Albano Martins



12 de julho de 2005

e por vezes

© Angelica @ www.olhares.com

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira | Matura Idade | 1973



29 de junho de 2005

praia

© carlos duarte @ www.olhares.com

É agora. A água passa
liberta agulhas
despertas, tu

agora devagar
– pode ser –
começas.

A mão move
precisa os dedos eles
tocam como as agulhas
despertam
e é agora, de claridade
nos cegas.

A boca inicia
algo exacto
mas como a água passa
luz liberta
o beijo alarga em
clarão.

E manifesta-se
mais como as agulhas.
É já outro
habita nova morada.
Como o osso de um pardal
onde deus viveu
esta manhã.



27 de junho de 2005

é a labareda da seda sob os dedos transmitida


© simplesmente maria @ www.olhares.com

(ainda Eugénio de Andrade)

É a labareda da seda sob os dedos transmitida
ao corpo todo, seda extraída ao segredo -
tocar e ser tocado, sentir em si
a ligeireza do fogo, a profundeza,
e estremecer, ficar em chaga:
e com dedos e sedas manter às labaredas, entre
terror e louvor
a comburente, combustível composição de tudo: ser
queimado vivo,
ser luminoso.

Herberto Hélder - "Uma prenda para Eugénio com algumas túlipas"



19 de junho de 2005

agradeço-te Deus por mais este espantoso

© Emanuel Couto @ www.olhares.com


i thank You God for most this amazing
day: for the leaping greenly spirits of trees
and a blue true dream of sky; and for everything
which is natural which is infinite which is yes

(i who have died am alive again today,
and this is the sun's birthday; this is the birth
day of life and of love and wings: and of the gay
great happening illimitably earth)

how should tasting touching hearing seeing
breathing any -lifted from the no
of all nothing - human merely being
doubt unimaginable You?

(now the ears of my ears awake and
now the eyes of my eyes are opened)

e.e. cummings


agradeço-te Deus por mais este espantoso
dia: pelos saltitantes esverdeados espíritos das árvores
e um azul verdade sonho de céu; e por tudo
que é natural, que é infinito, que é sim

(eu que morri estou hoje de novo vivo
e este é o dia de anos do sol; este é o nascente
dia da vida e do amor e das asas: e do alegre
grande acontecimento ilimitadamente terra)

como poderia saboreando tocando ouvindo lendo
respirando tudo - erguido do não
de todo o nada – humano meramente sendo,
duvidar inimaginável Tu?

(agora os ouvidos dos meus ouvidos despertam e
agora os olhos dos meus olhos estão abertos)

(tradução: doispontos)



17 de junho de 2005

na areia húmida

(sobre o «ermitar»)

A solidão verdadeira, quando a conhecerei de novo?
Vejo-me a caminhar à beira da água, embebido em mim mesmo.
Os meus pés deixam marcas na areia húmida, o meu cabelo
esvoaça suavemente ao vento do outono, brisa vinda de longe.
De mãos nos bolsos, eu sei que me afastei de tudo, do meu
destino e das cidades, dos pais e dos filhos que me couberam
para que também eu conhecesse o peso das palavras e do tempo.

Praia do Norte que chamas por mim, floresta densa
coberta de neve, quando virá enfim a manhã de novembro,
quando poderei caminhar na tua areia ensopada de sal?
Na véspera terei posto uma cruz nos dias que faltam
para que o mês termine. O sucesso da minha existência
terá deixado de interessar-me. De manhã saí de casa, era cedo,
como se fosse ao encontro da morte que espera por nós
na luz pálida de um dia igual aos outros.

João Camilo | A mala dos Marx Brothers | 1988



15 de junho de 2005

as bolas de sabão 


As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.

Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

Alberto Caeiro | O Guardador de Rebanhos | 13-03-1914



13 de junho de 2005

adeus


Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos,
carregada de flor e dos teus dedos;

como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve, e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.

Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.

Eugénio de Andrade | As palavras Interditas | 1950-1951
(em memória de Eugénio de Andrade)



6 de junho de 2005

não são as amoras

© António Manuel Pinto da Silva @ www.olhares.com

Não são as amoras
que se elevam
não,
mas os olhos que nelas caem.

Nem é o peito
que se ergue
não,
mas as mãos que aí mergulham.

Não é a água
que no corpo salta
não,
mas o faro desperto que a bebe.

Nem é a manhã
que da alegria fala,
não,
mas a luz da noite que a escreve.

Não é o instante
que se declara
não,
mas a eternidade que o manteve.

No teu peito de amoras
a água aviva uma luz absurda.
Guarda o cheiro inesquecível do tempo.

(em celebração da xi)



27 de abril de 2005

o beijo da cereja


Quisera eu ser uma cereja,
nascida do branco e do verde,
aquecida ao sol, refrescada ao vento.
Crescendo encarnada
como os teus lábios.
Virás provar-me
e eu te provarei.



20 de abril de 2005

preparo os dias da cinza

«porque tu és pó e ao pó voltarás»
BÍBLIA, Génesis, 3-19

Preparo os dias da cinza.
Os tempos sem sobressalto.
A terra árida onde apenas o vento
dispersa a inutilidade das ervas.
Aguardo o silêncio fundo
das vozes que não se ouvem.
A sobra, a escuta inútil
de uma alegria perdida.

Agradeço os dias da cinza
o tempo do coração inerte.
Nele guarda-se o fogo
que nem o desejo alcança.
Espero no pó das brasas extintas
o ressurgir de uma chama,
escondida e de novo acesa
no mais frio dos dias da cinza.



5 de abril de 2005

sob os teus pés

He Wishes for the Cloths of Heaven

Had I the heavens' embroidered cloths
Enwrought with golden and silver light
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams
I have spread my dreams under your feet
Tread softly because you tread on my dreams.

W. B. Yeats


Sob os teus pés

Tivesse eu as bordadas vestes do paraíso
tecidas com a luz do ouro e da prata
o azul e o sombrio e os negros trajes
da noite e luz e da média luz
Eu espalharia essas roupas sob os teus pés:
Mas, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos
Tenho espalhado os meus sonhos sob os teus pés
Pisa suavemente,
porque caminhas sobre os meus sonhos.

(Tradução: doispontos)



3 de abril de 2005

o fogo anima

(pela benção do fogo que não morre)

coberto de águas
e de meses
esperando o que não terá fim
o fogo anima

João Miguel Fernandes Jorge