14 de novembro de 2014

no ciclo eterno das mudáveis coisas


No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me infiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

8 de fevereiro de 2014

quando chega uma carta tua


Quando chega uma carta tua todas as divagações acabam, e acordo para a vida. Todos os problemas estranhos deixam de ter importância, os misteriosos quadros de doenças se desvanecem, e acabam-se as teorias vazias «de acordo com o estado presente da ciência», como elas são chamadas. Então o mundo fica tão acolhedor, tão alegre, tão fácil de compreender. A minha doce querida não é uma ilusão, ela não tem que ser comprovada por testes químicos; de facto ela pode ser observada a olho nú. Ainda bem que ela não tem nada a ver com doenças – e espero que continue – excepto por ter sido suficientemente imprudente para tomar um médico para amante. Oh Marty, é muito mais gratificante ser um ser humano em vez de um armazém de certas experiências monótonas. Mas ninguém se pode permitir a ser um ser humano por uma hora a não ser que tenha sido uma máquina ou um armazém por onze horas. E aqui chegámos, onde começámos.

Carta de Sigmund Freud a Martha Bernays, 9 de Outubro 1883 (excerto)

7 de fevereiro de 2014

retrato ardente

Robert Farber


Entre os teus lábios
é que a loucura acode
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"

2 de fevereiro de 2013

aquela triste e leda madrugada


Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade,
quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se d`ua outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
que duns e doutros olhos derivadas,
s`acrescentaram em grande e largo rio;

Ela viu as palavras magoadas,
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso as almas condenadas.

Luís de Camões

6 de maio de 2011

compulsão



toda esta produção compulsiva de palavras,
as mesmas palavras de que não gosto,
são o único modo de expressar estes pensamentos circulares.
tenho de os registar obrigatoriamente.
há tanto de mim já perdido
não suporto que mais estes pedaços caiam no esquecimento.
lembrar-me de mim, como fui,
o que acontece,
para que não me pareça que sou apenas uma fantasia
de alguém que já me esqueceu.

in “o tigre e outras marés”

5 de maio de 2011

belas palavras vazias



Não está em mim o dom de entrelaçar palavras em harmoniosos hinos
de louvor a qualquer coisa realmente maravilhosa.
Palavras bonitas, belas frases recheadas de vazio,
aparentemente suaves e dedicadas,
escondem a crueldade agressiva da condescendência
disfarçada a intenção enganadora de dominar.

Cada vez mais, prefiro belos actos a belas palavras,
embora uns e outros sejam passíveis de engano.
Mas é mais possível continuar na infinita produção
de belas palavras do que de belos actos.

Fazer é mais difícil do que dizer e quem muito fala belas palavras
vive da preguiça do pensamento alheio e da falta de esforço próprio
na autenticidade de fazer coincidir as palavras com os actos
e o que verdadeiramente é sentido.

in “o tigre e outras marés”

20 de setembro de 2009

em braços

Gustav Klimt | The Kiss | 1907-8



abraçados assim
                           sem existir

sinto-te no peito
                           sem tempo

lugar de emoção
                           explodido

arrebatamento
                       cristalino

unida em ti
                   assim existo

asim enlaçada
                        para lá do tempo

dois somos um
                         finalmente



19 de setembro de 2009

adeus

© Marques Tavares Carlos @ www.olhares.com

(pela intensidade do ser)

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tinhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade | Os Amantes sem Dinheiro | 1947-1949



16 de setembro de 2005

29 de julho de 2005

pai nosso

 
© Paulo A. @ www.olhares.com

Pai Nosso,
que estais nos céus
santificado seja o Vosso nome,
venha a nós o Vosso reino,
seja feita a Vossa vontade
assim na Terra como no Céu.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje,
perdoai-nos as nossas ofensas
assim como nós perdoamos
a quem nos tem ofendido
e não nos deixeis cair em tentação,
mas livrai-nos do mal.

Oração



26 de julho de 2005

chuva

(choveu, finalmente)

Chove uma grossa chuva inesperada
que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
duma vida que é chuva e não parece.
Chove, grossa e constante,
uma paz que há-de ser.
Uma gota invisível e distante
na janela, a escorrer.

Miguel Torga



24 de julho de 2005

liberdade


Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen | Mar Novo | 1958



15 de julho de 2005

verão

(o verão que tarda em chegar)

XXII – Num dia de Verão

Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...

Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?

Quando o Verde me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...


XLI – No entardecer

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...

Ah!, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos...

Mas graças a Deus que há imperfeição no mundo
Porque a imperfeição é uma coisa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma coisa a menos,
E deve haver muita coisa
Para termos muito que ver e ouvir...

Alberto Caeiro [Fernando Pessoa] | O Guardador de Rebanhos | 1914



14 de julho de 2005

escrito como vi

© vmdcc @ www.olhares.com

Uma brisa ligeira agita as folhas do salgueiro
os lótus de flores ébrias embebem-se de poente
nos montes distantes pálidas nuvens acariciam o céu ainda claro
a rapariga dos pós vermelhos tem seguramente doze, treze anos
docemente, ela recolhe uma canoa de nenúfares

Zhang Kejiu | Cinquenta"Xiaoling" | Trad. Albano Martins



13 de julho de 2005

pensamento primaveril


O medo mistura-se ao prazer
enquanto ela sorri ao pensar que vai ao seu encontro
A caminho do lago o orvalho da montanha refresca-lhe as mangas de seda
Quem se habituaria a estas coisas ilícitas?
Somente o receio de faltar ao juramento secreto
leva com passos cautelosos ao quiosque de perfumes de brocado
Espreita, procura nos ruídos do vento
esconde-te à espera do amor perfumado
Ao pé do muro branco uma flor brinca com a sua sombra
Sob as persianas vermelhas o brilho disfarçado da lua
Docemente
com um sopro, a lâmpada apaga-se

Zhang Kejiu | Cinquenta"Xiaoling" | Trad. Albano Martins



12 de julho de 2005

e por vezes

© Angelica @ www.olhares.com

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira | Matura Idade | 1973



29 de junho de 2005

praia

© carlos duarte @ www.olhares.com

É agora. A água passa
liberta agulhas
despertas, tu

agora devagar
– pode ser –
começas.

A mão move
precisa os dedos eles
tocam como as agulhas
despertam
e é agora, de claridade
nos cegas.

A boca inicia
algo exacto
mas como a água passa
luz liberta
o beijo alarga em
clarão.

E manifesta-se
mais como as agulhas.
É já outro
habita nova morada.
Como o osso de um pardal
onde deus viveu
esta manhã.



27 de junho de 2005

é a labareda da seda sob os dedos transmitida


© simplesmente maria @ www.olhares.com

(ainda Eugénio de Andrade)

É a labareda da seda sob os dedos transmitida
ao corpo todo, seda extraída ao segredo -
tocar e ser tocado, sentir em si
a ligeireza do fogo, a profundeza,
e estremecer, ficar em chaga:
e com dedos e sedas manter às labaredas, entre
terror e louvor
a comburente, combustível composição de tudo: ser
queimado vivo,
ser luminoso.

Herberto Hélder - "Uma prenda para Eugénio com algumas túlipas"



19 de junho de 2005

agradeço-te Deus por mais este espantoso

© Emanuel Couto @ www.olhares.com


i thank You God for most this amazing
day: for the leaping greenly spirits of trees
and a blue true dream of sky; and for everything
which is natural which is infinite which is yes

(i who have died am alive again today,
and this is the sun's birthday; this is the birth
day of life and of love and wings: and of the gay
great happening illimitably earth)

how should tasting touching hearing seeing
breathing any -lifted from the no
of all nothing - human merely being
doubt unimaginable You?

(now the ears of my ears awake and
now the eyes of my eyes are opened)

e.e. cummings


agradeço-te Deus por mais este espantoso
dia: pelos saltitantes esverdeados espíritos das árvores
e um azul verdade sonho de céu; e por tudo
que é natural, que é infinito, que é sim

(eu que morri estou hoje de novo vivo
e este é o dia de anos do sol; este é o nascente
dia da vida e do amor e das asas: e do alegre
grande acontecimento ilimitadamente terra)

como poderia saboreando tocando ouvindo lendo
respirando tudo - erguido do não
de todo o nada – humano meramente sendo,
duvidar inimaginável Tu?

(agora os ouvidos dos meus ouvidos despertam e
agora os olhos dos meus olhos estão abertos)

(tradução: doispontos)



17 de junho de 2005

na areia húmida

(sobre o «ermitar»)

A solidão verdadeira, quando a conhecerei de novo?
Vejo-me a caminhar à beira da água, embebido em mim mesmo.
Os meus pés deixam marcas na areia húmida, o meu cabelo
esvoaça suavemente ao vento do outono, brisa vinda de longe.
De mãos nos bolsos, eu sei que me afastei de tudo, do meu
destino e das cidades, dos pais e dos filhos que me couberam
para que também eu conhecesse o peso das palavras e do tempo.

Praia do Norte que chamas por mim, floresta densa
coberta de neve, quando virá enfim a manhã de novembro,
quando poderei caminhar na tua areia ensopada de sal?
Na véspera terei posto uma cruz nos dias que faltam
para que o mês termine. O sucesso da minha existência
terá deixado de interessar-me. De manhã saí de casa, era cedo,
como se fosse ao encontro da morte que espera por nós
na luz pálida de um dia igual aos outros.

João Camilo | A mala dos Marx Brothers | 1988



15 de junho de 2005

as bolas de sabão 


As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.

Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

Alberto Caeiro | O Guardador de Rebanhos | 13-03-1914



13 de junho de 2005

adeus


Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos,
carregada de flor e dos teus dedos;

como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve, e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.

Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.

Eugénio de Andrade | As palavras Interditas | 1950-1951
(em memória de Eugénio de Andrade)



6 de junho de 2005

não são as amoras

© António Manuel Pinto da Silva @ www.olhares.com

Não são as amoras
que se elevam
não,
mas os olhos que nelas caem.

Nem é o peito
que se ergue
não,
mas as mãos que aí mergulham.

Não é a água
que no corpo salta
não,
mas o faro desperto que a bebe.

Nem é a manhã
que da alegria fala,
não,
mas a luz da noite que a escreve.

Não é o instante
que se declara
não,
mas a eternidade que o manteve.

No teu peito de amoras
a água aviva uma luz absurda.
Guarda o cheiro inesquecível do tempo.

(em celebração da xi)



27 de abril de 2005

o beijo da cereja


Quisera eu ser uma cereja,
nascida do branco e do verde,
aquecida ao sol, refrescada ao vento.
Crescendo encarnada
como os teus lábios.
Virás provar-me
e eu te provarei.



20 de abril de 2005

preparo os dias da cinza

«porque tu és pó e ao pó voltarás»
BÍBLIA, Génesis, 3-19

Preparo os dias da cinza.
Os tempos sem sobressalto.
A terra árida onde apenas o vento
dispersa a inutilidade das ervas.
Aguardo o silêncio fundo
das vozes que não se ouvem.
A sobra, a escuta inútil
de uma alegria perdida.

Agradeço os dias da cinza
o tempo do coração inerte.
Nele guarda-se o fogo
que nem o desejo alcança.
Espero no pó das brasas extintas
o ressurgir de uma chama,
escondida e de novo acesa
no mais frio dos dias da cinza.



5 de abril de 2005

sob os teus pés

He Wishes for the Cloths of Heaven

Had I the heavens' embroidered cloths
Enwrought with golden and silver light
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams
I have spread my dreams under your feet
Tread softly because you tread on my dreams.

W. B. Yeats


Sob os teus pés

Tivesse eu as bordadas vestes do paraíso
tecidas com a luz do ouro e da prata
o azul e o sombrio e os negros trajes
da noite e luz e da média luz
Eu espalharia essas roupas sob os teus pés:
Mas, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos
Tenho espalhado os meus sonhos sob os teus pés
Pisa suavemente,
porque caminhas sobre os meus sonhos.

(Tradução: doispontos)



3 de abril de 2005

o fogo anima

(pela benção do fogo que não morre)

coberto de águas
e de meses
esperando o que não terá fim
o fogo anima

João Miguel Fernandes Jorge



31 de março de 2005

30 de março de 2005

as portas de jericó


Para derrubar muralhas,
Em Jericó,
Usaram mil trombetas.

Tivessem usado as tuas palavras,
E as portas
Seriam oferecidas.

deNeve



22 de março de 2005

sol de primavera


Deixo a brisa de leste banhar-me a face
A primavera resplandece de norte a sul
Com dez mil tons de vermelho
e dez mil tons de azul

Chu Hsi (séc. IX) - trad.: Jorge Sousa Braga



21 de março de 2005

4 elementos II


Procuro. Aqui estou.
Um chão para encontrar
a essência de respirar.
A coragem de navegar
os incêndios por atear.
Procuro. Aqui vou.



20 de março de 2005

a magnólia


Para celebrar a Primavera surgida

A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem a forma
o meu esplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.

Luiza Neto Jorge



17 de março de 2005

4 elementos


aqui estou
rasgada de terra
cortada de ar
aguardo
cruzar a água
acender o fogo
e ir



13 de março de 2005

cântico dos cânticos

[...]

ele
Ah! Como és bela, minha amiga!
Como são lindos os teus olhos de pomba!

ela
Ah! Como é belo o meu amado!
E como é doce,
como é verdejante o nosso leito!
Cedros são as vigas da nossa casa,
e os ciprestes, o nosso tecto.

ele
Tal como um um lírio entre os cardos
é a minha amada entre as jovens.

ela
Tal como a macieira entre as árvores da floresta
é o meu amado entre os jovens.
Anseio sentar-me à sua sombra,
que o seu fruto é doce na minha boca.
Leve-me para a sala do banquete,
e se erga diante de mim a sua bandeira de amor.
Sustentem-me com bolos de passas,
fortaleçam-me com maçãs,
porque eu desfaleço de amor.
Por baixo da minha cabeça ele põe a mão esquerda
e abraça-me com a sua mão direita.
Eu vos conjuro, mulheres de Jerusalém,
pelas gazelas ou pelas corças do monte:
não desperteis nem perturbeis
o meu amor, até que ele queira.

A voz de meu amado! Ei-lo que chega,
correndo pelos montes,
saltando pelas colinas.
O meu amado é semelhante a um gamo
ou a um filhote de gazela.
Ei-lo que espera,
por detrás do nosso muro,
olhando pelas janelas,
espreitando pelas frinchas.
Fala o meu amado e diz-me:

ele
Levanta-te! Anda, vem daí,
ó minha bela amada!
Eis que o Inverno já passou,
a chuva parou e foi-se embora;
despontam as flores na terra,
chegou o tempo das canções,
e a voz da rola
já se ouve na nossa terra;
a figueira faz brotar os seus figos
e as vinhas exalam perfume.
Levanta-te! Anda, vem daí,
ó minha bela amada!
Minha pomba, nas fendas dos rochedos,
no escondido dos penascos,
deixa-me ver o teu rosto,
deixa-me ouvir a tua voz.
Pois a tua voz é doce
e o teu rosto encantador.

[...]

ela
Sob a macieira te despertei,
lá onde a tua mãe sentiu as dores,
onde sentiu as dores a que te deu à luz.
Grava-me como selo em teu coração,
como selo no teu braço,
porque forte como a morte é o amor,
implacável como o abismo é a paixão;
os seus ardores são chamas de fogo,
são labaredas divinas.
Nem as águas caudalosas conseguirão
apagar o fogo do amor,
nem as torrentes o podem submergir.
Se alguém desse toda a riqueza de sua casa
para comprar o amor,
seria ainda tratado com desprezo.

BíBLIA © Difusora Bíblica, 2ª ed., Maio 2000, dir. Herculano Alves



7 de março de 2005

segredo

d’après Amadeo Modigliani

Nem o Tempo tem tempo
para sondar as trevas

deste rio correndo
entre a pele e a pele

Nem o Tempo tem tempo
nem as trevas dão tréguas

Não descubro o segredo
que o teu corpo segrega

David Mourão Ferreira



6 de março de 2005

o descascador de canela


Se eu fosse um descascador de canela
deitar-me-ia na tua cama
e deixaria o pó amarelo da casca
na tua almofada.

Os teus seios e os teus ombros cheirariam a canela
nunca mais poderias passar no mercado
sem a profissão dos meus dedos
flutuando por cima de ti. O cego tropeçaria
certo de quem se aproximava
mesmo que tomasses banho
na chuva das calhas, na monção.

Aqui no cimo da coxa
neste macio pasto
vizinho do teu cabelo
ou do sulco
que te divide as costas. Este tornozelo.
Serás conhecida entre os estranhos
como a mulher do descascador de canela.

Só a custo te podia ver
antes do casamento
nunca te toquei
- a tua mãe nariguda, os teus irmãos tão brutos.
Enterrei as minhas mãos
em açafrão, disfarcei-as com
alcatrão de tabaco
ajudei os apicultores a colher o mel...

Uma vez que estávamos a nadar
toquei-te na água
e os nossos corpos permaneceram livres,
podias segurar-me e ser cega de cheiro
Saltaste a margem e disseste

isto é como tu tocas as outras mulheres
a mulher do cortador de relva, a filha do queimador de limão
E procuraste nas tuas mãos
o perfume desaparecido

e soubeste
como é bom
ser a filha do queimador de lima
deixada sem marca
como se lhe tivessem falado no acto do amor
como se ferida sem o prazer de uma cicatriz
Roçaste o teu ventre nas minhas mãos
no ar seco e disseste
sou a mulher do descascador
de canela. Cheira-me.

Michael Ondaatje



5 de março de 2005

haiku das pedras


Estacou o passo.
Olhou as pedras.
Mostraram-lhe mil caminhos.

Então andou.



4 de março de 2005

a casa onde às vezes regresso é tão distante

(na morte do Victor Wengorovius - in memoriam)

A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado do meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça



3 de março de 2005

a meu favor

Ana Irene @ www.olhares.com

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

Alexandre O’Neill



2 de março de 2005

gémeos


ao início,
de sonhar fundidos,
(um são dois, dois são um)
(eu sou tu, tu és eu)
despertaram para a unidade,
sem acreditar.
(eu sou eu, tu és tu?)

acordados ainda se confundiam.
(esta mão, que é tua, é minha)
da confusão, nasceu a luta.
(esta mão, que é minha, não a quero)
viveram dias
na batalha da identidade.
(eu não sou tu, tu não és eu)

por fim,
viram que são realmente dois
e estão unidos



1 de março de 2005

coração vagabundo

Meu coração não se cansa
De ter esperança
De um dia ser tudo o que quer
Meu coração de criança
Não é só a lembrança
De um vulto feliz de mulher
Que passou por meus sonhos
Sem dizer adeus
E fez dos olhos meus
Um chorar mais sem fim
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo
Em mim

Vinícius de Moraes



23 de fevereiro de 2005

três ilusões

1 - Sentimento

Perfeito e bom sentimento
Em mim morou
Que amor maior nunca houve
E o fim
Chegou

Estranho favor fez o vento
Vento que o tempo esqueceu

Venham de longe me ouvir
Que eu também vou cantar alto

Ah, já vi
O meu fado


2 - Culpa

Culpa que me segues sem eu querer
Jura que me deixas decidir

Aceitas ou não que nunca é tarde,
aceitas ou não que voltarei

Se calhar, se calhar
amanhã há-de haver mais e eu não sei;
Devagar, com vagar
Vou voltar à mágoa que deixei


3 - Amargura

Amargura, descansada e triste
- Parece lonjura ou medo?

É quase certo,
Que nada existe;

Nada está perto,
Nem eu estou triste.

Pedro Ayres de Magalhães



22 de fevereiro de 2005

vigília

Paralelamente sigo dois caminhos
Abstrato na visão de um céu profundo.
Nem um nem outro me serve, nem aquele
Destino que se insinua
Com voz semelhante à minha. O melhor mundo
Está por descobrir. Não seque a lua
Nem o perfil da proa. Vai direito
Ao vago, incerto, misterioso
Bater das velas sinalado de oculto.

Quero-me mais dentro de mim, mais desumano
Em comunhão suprema, surto e alado
Nas aragens noturnas que desdobram as vagas,
Chamam dorsos de peixe à tona de água
E precipitam asas na esteira de luz.
Da vida nada senão a melhoria
De um paraíso sonhado e procurado
Com ternura, coragem e espírito sereno.

Doçura luminosa de um olhar. Ameno
Brincar de almas verticais em pleno
Sol de alvorada que descerra as pálpebras.

Ruy Cinatti



21 de fevereiro de 2005

um adeus português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensangüentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Alexandre O'Neill