24 de novembro de 2016

noite e dia

"Olha para a noite como se o dia nela devesse morrer e para a manhã como se todas as coisas delas nascessem"


André Guide

23 de novembro de 2016

22 de novembro de 2016

tempo

deixa-me amar-te
dá-me o tempo
lento, para cresceres
dentro de mim

ocupares o lugar
onde moras, e que ainda não sei.

21 de novembro de 2016

espaços vazios

quero-te um.
inteiro e completo.
igual a mim.
inteira.
profundamente
unidos nos espaços vazios,
onde apenas cabe o outro.

15 de outubro de 2016

olhos de sol

chegas de madrugada
olhos claros, no fulgor
do sol do meio dia

entrego as minhas manhãs
todas a ti, em planicies macias
que apenas se adivinham

pelas tardes,
nos teus olhos de sol do meio dia
me perco e me deixo tomar

inundas todos os lugares
da minha pele
com cheiro de mar e beijos

29 de setembro de 2016

dormem

dormem juntos
finalmente
a menina e o ouriço
enrolados numa bola
no casulo cor de laranja
quentes no corpo e na alma
um só coração

28 de setembro de 2016

a menina

a menina, 
encolhida no escuro
sombria na alma e no corpo,
mantinha-se alerta
rasgada de raiva 
e esgotada de tristeza,
a menina,
naquele canto,
sofria de amor

in "o tigre e outras marés"

25 de setembro de 2016

fogo líquido

arcos de fogo líquido
entrelaçados entre mim e ti
labaredas em fusão silenciosa

respirar

in "em terra"

23 de setembro de 2016

alma

olho para os teus olhos
de olhos fechados
e vejo dentro da alma
a cor da tua.
é rosa-encarnado-laranja
da cor da minha.

22 de setembro de 2016

lua negra

sente o meu cheiro no vento
escuta a minha presença sob a lua negra
e vem


16 de setembro de 2016

na lua do meu corpo

encontra-me na lua do teu corpo
na sede de te encontrar
em momentos infindos
na lua do meu

8 de setembro de 2016

fecha os olhos


fecha os olhos
sente
o respirar da pele
em nuvens de calor
e ondas perfumadas
fecha os olhos
e olha-me com os dedos

1 de setembro de 2016

cuida-me

chega de mansinho
e cuida-me
toca-me com o olhar
dedos leves
pele morna
cuida-me
e faço-te voar

31 de agosto de 2016

canas

uma mesa pequena, duas cadeiras. o lugar perfeito.
janela aberta para a brisa fresca de este, num dia quente de verão.
um café longo, um bolo delicado. a companhia das letras.
em frente, fora da janela, uma muralha de canas
fecha o horizonte numa mancha de verde.
aqui podia ser qualquer lugar do mundo.

in "momentos perfeitos"

27 de julho de 2016

livro cor de rosa

Tarde quente a lembrar outras tardes, em harmonia de cores internas.
A brisa morna leva as cortinas caramelo. O sofá, acolhedor e reconfortante como chocolate negro. O livro, tão cor de rosa como a sua capa enfeitada de bolachas, leva-me ao país encantado onde todos têm um final feliz, apesar dos precalços e dureza do caminho. É possível a leveza, é possível sonhar e atingir o extraordinário. Com a ajuda de gelado de nozes e limão.

in "momentos perfeitos"

22 de julho de 2016

baleia



Sou o ar e a vertigem imóvel
de ser.
Flutuo na imensidão que me contém
e sou contida
Dentro levo galáxias e tudo o que existe.
Sou. Apenas sou.

20 de julho de 2016

aqui

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não por aquilo que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

Sophia de Mello Breyner Andresen

19 de julho de 2016

solidão

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do meu próprio coração.

Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
o mistério das palavras maduras
ou a brancura de um amor que nos prendia.

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até ouvir
o meu sangue jorrar na voz das fontes.

Eugénio de Andrade

15 de julho de 2016

caminho

O caminho vai longo.
E hoje cansado. Gasto.
Uma corrente ininterrupta de cair e levantar.
Colar as partes quebradas.
Amarrar os fios invisíveis da fé.
Convocar a coragem de voltar a ser.
Juntar os restos da força até ser uma vontade.
Pedaços espalhados de mim.
Sou, serei, inteira de novo.

in "caminhos das pedras"

14 de julho de 2016

basta

rasga-me a voz a garganta
o som sufocado,
preso no corpo, exausto
de tanto silêncio, gritar
num sussurro

basta

3 de julho de 2016

sem fé

não existes
uma nuvem fugidia
todos os esforços de te alcançar
terminam em dor
exausta, sem fé
tanta vontade gasta
em encontrar nada
perdida de novo

2 de julho de 2016

tortura

a tortura imparável 
da solidão
rói os ossos e a pele
a carne derrama-se 
em águas sem fim

in "o tigre e outras marés"

30 de junho de 2016

ar

inspiro e o ar não entra
expiro e o ar não sai

que faço agora?

já não tenho mais corpo
cortado de novo
sem respirar

29 de abril de 2016

ondas

um mundo de água por dentro

uma fina capa apenas mantém a forma
onde crescem peixes do ar e unicórnios de flores

balança numa ginga ritmada
ao som das voltas em torno do sol

balança a água
ondas sobem e baixam

balançam os peixes e os unicórnios
as flores, as ondas sobem e baixam

sobe uma onda, quebra a fina capa
a água espalha-se pelo vazio

espaço ocupado agora



no "mundo d'água"

14 de abril de 2016

gota a gota

gotas rosa e laranja
caem sobre a minha pele
devagar dissolvem a fina capa
e espalham-se por todos os recantos
em ondas de amor e cheiro de canela


no "mundo d'água"

13 de abril de 2016

31 de março de 2016

30 de março de 2016

28 de março de 2016

mãos

pelas tuas mãos passa a minha pele

e por elas,
não sei o que fazer das minhas



in "terra em mim"

23 de março de 2016

terra

paro o vento, o fogo, as marés
afundo

fundo-me na terra

apenas sinto



in "terra em mim"

22 de março de 2016

toque

tempo suspenso
um toque que mal toca
na intensidade e
respiração profunda
transmutação da pele

in "terra em mim"

8 de março de 2016

rotina

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade

1 de março de 2016

Lembra-me um sonho lindo

Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada

Canta, rouxinol, canta, não me dês penas
Cresce, girassol, cresce entre açucenas
Afaga-me o corpo todo, se te pertenço
Rasga-me o ventre ardendo em fumo de incenso

Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada

Ai! Como eu te quero! Ai! De madrugada!
Ai! Alma da terra! Ai! Linda, assim deitada!
Ai! Como eu te amo! Ai! Tão sossegada!
Ai! Beijo-te o corpo! Ai! Seara tão desejada!

Fausto Bordalo Dias, letra "Lembra-me um sonho lindo" in "Por este Rio Acima"

18 de fevereiro de 2016

o que há em mim é sobretudo cansaço


O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

15 de fevereiro de 2016

nada


nada
vazio

absolutamente nada




até o vazio entre galáxias está pleno de ligações





in "caminho das pedras"

13 de fevereiro de 2016

verde esmeralda



Vento vagabundo
Rumores de folhas e águas correntes,
aroma de chuva e terra
Raízes profundas
entrelaçadas em mim
atentas, pulsantes.
Verde esmeralda,
húmido, suave e quente
Que me leva.

in "caminhos do vento"

10 de fevereiro de 2016

vem sentar-te comigo

d'aprés kenglye


vem sentar-te comigo, querido
à beira rio
sentir
a água passar debaixo dos pés
o calor do sol nos tornozelos
vem sentar-te comigo, querido
a ver os peixes preguiçarem.
sons de sapos e ovelhas
o dia que não termina e, contudo, se move.

in “caminhos do vento”

9 de fevereiro de 2016

sossego

o sossego não me larga
esta paz nos pés
larga na cintura
balouçar na rede da tarde
a brisa morna no cabelo
leves ondulações na pele
quieta, deixo o tempo
que não passa, nem fica

mão em mão

in “caminhos do vento”

8 de fevereiro de 2016

lua nova



Quando a lua nova chega
Posso enfim descansar
Largar as agruras das outras luas
Deitar-me no prado dos teus olhos
E dormir no ninho de penas suaves
Que construíste para mim

in "caminhos do vento"

5 de fevereiro de 2016

perigo

o que és?
esta paz nas ancas,
no ar do peito.
o que me fazes?
sei do perigo e não
o sinto,
só quietude.

in “caminhos do vento”

14 de novembro de 2015

sombra na luz

a sombra manchada de luz
a luz enfeitada de sombra
a perfeição do imperfeito
a beleza do sombrio

in "árvores de mim"

8 de novembro de 2015

fogueira de mim

Vem sentar-te à sombra da minha fogueira.
Sentir o fresco da noite das costas
e o calor de mim por todo o corpo

in "árvores de mim"

6 de novembro de 2015

flores dos cactos

A floresta rumoreja
em espasmos crescentes
Cresce e floresce
perante os meus olhos
como as flores dos cactos
Numa noite
nasce e morre, feliz.

in "árvores de mim"

10 de outubro de 2015

aspiração

Rios soltam risos e gorjeios
Correm velozes nas veias
da floresta
As árvores solenes
entretêm-se com a agitação
e aspiram a também ser rio

in "árvores de mim"

4 de outubro de 2015

histórias

As árvores sussurram
fantasias
Histórias inventadas
de princesas há muito mortas
Quem dera ser uma história
contada por mim
em alegres madrigais

in "árvores de mim"

14 de setembro de 2015

dois

e se eu for outro?
serás tu?
estarás comigo
sendo mudado?
esta fluidez de ser
ou deixar de ser
a dança de equilíbrio
e transformação
de dois

in "caminhos do vento"

1 de setembro de 2015

terra

Serei terra a ser arada
Alimento para prados
árvores e melros
Sentir a abundância
rica de abelhas e caracóis
a crescer de mim e em mim
Quero ser este meio
fecundo exuberante
Um borbulhar de vida
Ininterrupta constante
prazerosa

in “árvores de mim”

14 de agosto de 2015

ser árvore

Árvore poderosa de mim
ligada ao fundo da terra
e a toda a floresta
por raízes fortes e intensas
Em ti, corre o alimento rico
trazido das profundezas
e criado do sol
Alquimia fluida
Rios de seiva percorrem
todo este corpo
ininterruptamente
Abraçam o vento, o sol
as tempestades geladas
Fluindo sempre
Sendo sempre árvore
Essa decisão não decidida
Simplesmente aceite

in “árvores de mim”

17 de julho de 2015

lago

Lagos serenos reflectem a lua
Uma brisa leve eriça as costas da água
em pequenos risos
Esta paz de estar aqui, neste lago
Eu e a lua, o silêncio cheio de som

in “árvores de mim”

16 de julho de 2015

metal

O denso metal
Incandesce
E transforma-se
Derretido se espraia
Nos espaços vazios
Quente e meloso
Em risos se fica

in “árvores de mim”

12 de julho de 2015

quietude

A quietude da serenidade
sem esplendores de fogo
A tranquilidade das árvores
ligadas ao chão e ao céu
Riachos de seiva
percorrem estes corpos
inexoravelmente crescentes
com aparente lentidão
O propósito de ser
determinado e aceite

in “árvores de mim”

19 de junho de 2015

casulo

quando me rasgarei por fim?
libertar-me deste casulo que me sufoca
quando deixarei de aguardar o mudar dos tempos
e dos terrores secretos.
nascer de novo transformada
esta impaciência por fim calma

in “memórias das pedras”

16 de junho de 2015

passado

o tempo passa inexorável
as marcas ficam em mim
cicatrizes que não aceito
o passado que não parece passar
de tão presente é

in “caminho das pedras”

14 de junho de 2015

caminho das pedras


Volto de novo
aos velhos caminhos
As pedras
Anseio pela areia macia e quente
um trilho verdejante
um prado
Não estas pedras,
aguçadas
Rasgam os pés e o ânimo

in "caminho das pedras"

13 de junho de 2015

sem rumo


ventos me trazem
ventos me levam
ao sabor destas correntes
estranhas
parece vida sem rumo
será que existe um fim
será que é esse o caminho
o que vejo à minha volta
rodopiando nestes ventos
contraditórios

in “memórias das pedras”

11 de junho de 2015

oceano


De tanto dizer
já nada sobra
Um vazio
que parece paz
instala-se
Não é pacífico
este oceano
Dormente
contido. Irá
transbordar de novo
Enraivecido

in “memórias das pedras”

8 de junho de 2015

longe

Onde vão estas águas atrás dos meus olhos
Como saem de mim
Lavadas
Onde vão estes ventos inquietos e frios
Para longe de mim
Desterrados

in “memórias das pedras”

28 de maio de 2015

ouriço

O meu pequeno ouriço
Eriçado, bola de picos
Partiu todos os espinhos
Agora, nu, dorme em paz
Num casulo laranja
Quente por fim

in "árvores de mim"

18 de maio de 2015

reserva

sem palavras me deixo ficar
apenas sinto 
a minha reserva
em relação ao mundo.
separada
qual o meu lugar?
quem me encontrará
neste local distante e ermo?

in "caminho das pedras"

14 de maio de 2015

caminho das pedras


Tantos caminhos de pedras percorri
e eis-me de volta à caverna.
Nómada neste país de imóveis castelos
que me negam a entrada.
Onde irei morar?
Qual é o vento que me vai levar
ao destino de ser casa?

in "caminho das pedras"

10 de maio de 2015

quebrados

Triste por ti
Por mim
Pela vida que te parece cortada
Pelo imenso esforço
a corrigir os défices
Esforço inglório
permanente
a lutar contra joelhos quebrados
e mais...
Esta perda da tua vida
Como te vai ser difícil
construir e lutar ao mesmo tempo
No final, talvez a tristeza seja só minha
E consigas tu
ser e seguir

in "caminhos das pedras"

6 de maio de 2015

amarras

Como seguir o meu vento
Se estou presa ao chão?
Cordas invisíveis, inexistentes,
Fortes como amarras
Seguram toda esta vontade
Como solto as velas?
Tenho de naufragar todos os barcos
Para poder voar.

in "caminho das pedras"

1 de maio de 2015

pele de água

Uma pele de água
pesada e interna
desmancha-se e cai
como um trapo velho
Ali fica a inundar os tornozelos
Uma enchente que não
para nem escorre
Continua a subir
até me afogar
em lodo e barcos vazios

in "caminho das pedras"

20 de abril de 2015

tingida de ti

a tua cor tintada em mim
tingida dentro da pele
sou tão estranha sem esta cor
marcada de ti
a verdade é que me faltas
e todas as desculpas justificadas
não me servem
sapatos velhos e gastos
toalhas molhadas no chão
uma voz dentro de mim diz
que me faltas
no ar

in "memórias do fogo"

15 de abril de 2015

vem


Meu vento, minha árvore
aqui te espero
Vem depressa,
arrebatar-me
do fogo deste dragão
Meu vento, minha árvore
brisa no coração
Leva-me a ver os mares distantes
Seres de encanto
Envolvida em nuvens
E chamas

in "caminhos do vento"

14 de abril de 2015

grito

Um grito tenta romper
esta lama espessa
e não sai da boca
Peixes a sufocar
ao lado da água

in "caminhos das pedras"

1 de março de 2015

explodir

Prefiro dor intensa, a explodir
Pelo menos sinto, vivo
Em vez desta dor surda constante
Que me rouba, sem piedade, o sentido

in "o tigre e outras marés"

21 de fevereiro de 2015

compreendo os dias de cinza



Compreendo finalmente os dias de cinza.
Compreendo com outro sentir,
de fora, como embaixadora
numa terra deserta.
A missão de explorar o mundo e compreender
os modos dos outros.
Lamento os dias da cinza.
Lamento o quebrar dos ramos e o fogo devastador,
a impossibilidade de criar uma floresta a partir da secura.
Nem uma pequena árvore sequer, despida, com 3 folhas.

in "o tigre e outras marés"

19 de fevereiro de 2015

avé maria


avé maria cheia de graça
o senhor está contigo
bendita és entre as mulheres
bendito é o filho do teu ventre
pois foste a escolhida

maria, mãe de todos
intercede por nós
errantes, sem senhor,
sem bençãos e sem filhos

com as tuas mãos cura
a dor do mundo
agora e para sempre
ámen

in "o tigre e  outras marés"

17 de fevereiro de 2015

rios de mim


SebastianWagner
Tenho tantos rios para dar
e nenhum deserto espera por mim
para florir.
Apenas vazio e rochas agrestes
que não querem a minha água.
Onde irei desembocar os meus rios?
As nascentes borbulham de impaciência
contidas até ao esmagamento
na espera, até agora inútil,
de um vale que me contenha.

in “o tigre e outras marés”

13 de fevereiro de 2015

águas



Esta tristeza de ti não sai de mim
Como largo esta perda?
Perda de mim, das fantásticas hipóteses do que poderia ter sido.
Perda de ti, apesar de nem te ter.
Água escorre por dentro do corpo
Sai pelos pés, de tão cansada.

in “o tigre e outras marés”

suave calmo

Suave suave és
Calmo calmo te sinto
E tudo o resto
É apenas minha invenção

in "memórias do fogo"

12 de fevereiro de 2015

riscas






a sombra manchada de luz
a luz enfeitada de sombra

in “o tigre e outras marés”

11 de fevereiro de 2015

o tigre ferido



o tigre está ferido
também ele
confunde esta dor com amor

o meu tigre ronrona
deitado nos lençóis verdes do prado

in “o tigre e outras marés”

10 de fevereiro de 2015

não me acompanha



o tigre voltou ao fundo da selva
escondido na caverna por mais mil anos
ou apenas umas horas
voltou às sombras

este meu tigre não me acompanha
fulvo, furtivo apenas me toma de assalto
estraçalha e abandona
no chão um resto destroçado de mim
sem vida em vida
em inegável e permanente dor

in “o tigre e outras marés”



9 de fevereiro de 2015

o tigre espreita



o tigre espreita
emboscado
riscas em sombra e luz

persegue-me por eras

sinto o seu bafo nos flancos
sem entender
de onde vem este mal

num súbito relâmpago
sombra e luz ataca
salta esmaga-me o ar
garras rasgam
ossos em farpa, esfacelada
coração latejando sangue
o alívio final não vem
ali fico em dor lancinante
até à eternidade

o meu tigre e eu presos
neste ritual infinito
a que estamos obrigados
por motivos desconhecidos

in “o tigre e outras marés”

8 de fevereiro de 2015

espadas

syrius


esta dor
espadas que cortam
abrem-me de  cima a baixo
expondo o que?
apenas dor?
será que o coração de dor
das igrejas é possível?
alma dorida
será que vai terminar um dia?
não conheço outros sinónimos para esta dor
nada se compara, não há mais palavras
apenas dor.

in “o tigre e outras marés”

24 de janeiro de 2015

sem sentir



Sem palavras me deixo ficar
Apenas sentir a minha reserva
Em relação ao mundo
Separada
Afinal qual é o perigo?

Prefiro a dor intensa a explodir
Pelo menos sinto, vivo
Em vez desta dor surda constante
Que me rouba, sem piedade, o sentido

in “o tigre e outras marés”

23 de janeiro de 2015

sei de certeza que te vou perder



Sei de certeza que te vou perder.
Tão certo,
como o movimento dos planetas não poder ser parado,
ficar sem ti é um facto.
Esta ideia volta e volta, em cada vez mais pequenas elipses,
à medida que se aproxima a hora.
Sei de certeza que te vou perder.
E a tristeza de perder quem nunca tive
é demais para o meu tamanho.
Preciso do caminho daqui para a lua e mais além
Como se perde o que nunca se teve?
Como o calor do sol, que também nunca me pertenceu,
Aqueces-me e estás no meu céu.
Sem ti, será noite de novo.
Sem estrelas e sem a dança dos astros,
a tristeza vai atingir-me,
com a força extraordinária das estrelas que explodem.
Os restos de mim, espero,
que sejam sementes para outro amor.

in “memórias do fogo”

22 de janeiro de 2015

impossibilidade



as impossibilidades enchem-me de vazio.
se tudo o que sinto for impossível,
o que resta?
não há mãos, nem grilos,
nem sequer sapos.

in “o tigre e outras marés”

20 de janeiro de 2015

tristeza


sangue
espesso quente viscoso
escorre em golfadas
do peito

lágrimas que os olhos não choram

in "o tigre e outras marés"


17 de janeiro de 2015

a tua cor



Da tua cor, a que mais amo
é esta, rosa-salmão, suave e intensa,
em laivos de carmim luminoso,
um fogo ardendo macio.
O calor desta cor, 
brilha escondido aos olhos do mundo,
até de ti.
É esta cor que me aquece e encanta.
Imagino as infinitas possibilidades,
e perco-me nesse mar de fantasia.

in “memórias do fogo”

16 de janeiro de 2015

a alegria de te ver

Irondoom


a alegria de te ver
como grilos escondidos
nas noites de verão
pequenos sobressaltos de som
que tem necessariamente de se manter
na sombra

in “memórias do fogo”

15 de janeiro de 2015

decisão



Gosto de sentir a decisão formar-se
Crescer em rumores internos
Gestos iniciados leves
Por fim avançar suavemente
Decidido

in “memórias do fogo”

14 de janeiro de 2015

simples gostar de ti


gosto das coisas simples de ti.
gostava de mais.
mais coisas simples,
para fazer crescer
o quanto gosto de ti.

in “memórias do fogo”

8 de janeiro de 2015

formadora de fogueiras

Irondoom


Como alimentar um pequeno fogo para que cresça
Assim estou eu contigo
Formadora de fogueiras
Atiçadora de incêndios
Deixada para trás
Por um vento novo
Que leva finalmente todo esse esplendor para longe

in “memórias do fogo”

6 de janeiro de 2015

corda



Apenas pedaços sobram
Um sorriso fugidio
Onde as possibilidades moram
Uma inocência macia
Alguma hesitação
Delicadeza
Pedaços de corda ténue
Que me mantém ligada a ti

in “memórias do fogo”


2 de janeiro de 2015

suspenso



Sublimar seria importantemente útil
Dançar até todo o tempo terminar
Ter essa alegria de voar
O momento suspenso eternamente

in “memórias do fogo”

14 de novembro de 2014

no ciclo eterno das mudáveis coisas


No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me infiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

8 de fevereiro de 2014

quando chega uma carta tua


Quando chega uma carta tua todas as divagações acabam, e acordo para a vida. Todos os problemas estranhos deixam de ter importância, os misteriosos quadros de doenças se desvanecem, e acabam-se as teorias vazias «de acordo com o estado presente da ciência», como elas são chamadas. Então o mundo fica tão acolhedor, tão alegre, tão fácil de compreender. A minha doce querida não é uma ilusão, ela não tem que ser comprovada por testes químicos; de facto ela pode ser observada a olho nú. Ainda bem que ela não tem nada a ver com doenças – e espero que continue – excepto por ter sido suficientemente imprudente para tomar um médico para amante. Oh Marty, é muito mais gratificante ser um ser humano em vez de um armazém de certas experiências monótonas. Mas ninguém se pode permitir a ser um ser humano por uma hora a não ser que tenha sido uma máquina ou um armazém por onze horas. E aqui chegámos, onde começámos.

Carta de Sigmund Freud a Martha Bernays, 9 de Outubro 1883 (excerto)

7 de fevereiro de 2014

retrato ardente

Robert Farber


Entre os teus lábios
é que a loucura acode
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"

2 de fevereiro de 2013

aquela triste e leda madrugada


Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade,
quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se d`ua outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
que duns e doutros olhos derivadas,
s`acrescentaram em grande e largo rio;

Ela viu as palavras magoadas,
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso as almas condenadas.

Luís de Camões

6 de maio de 2011

compulsão



toda esta produção compulsiva de palavras,
as mesmas palavras de que não gosto,
são o único modo de expressar estes pensamentos circulares.
tenho de os registar obrigatoriamente.
há tanto de mim já perdido
não suporto que mais estes pedaços caiam no esquecimento.
lembrar-me de mim, como fui,
o que acontece,
para que não me pareça que sou apenas uma fantasia
de alguém que já me esqueceu.

in “o tigre e outras marés”

5 de maio de 2011

belas palavras vazias



Não está em mim o dom de entrelaçar palavras em harmoniosos hinos
de louvor a qualquer coisa realmente maravilhosa.
Palavras bonitas, belas frases recheadas de vazio,
aparentemente suaves e dedicadas,
escondem a crueldade agressiva da condescendência
disfarçada a intenção enganadora de dominar.

Cada vez mais, prefiro belos actos a belas palavras,
embora uns e outros sejam passíveis de engano.
Mas é mais possível continuar na infinita produção
de belas palavras do que de belos actos.

Fazer é mais difícil do que dizer e quem muito fala belas palavras
vive da preguiça do pensamento alheio e da falta de esforço próprio
na autenticidade de fazer coincidir as palavras com os actos
e o que verdadeiramente é sentido.

in “o tigre e outras marés”

20 de setembro de 2009

em braços

Gustav Klimt | The Kiss | 1907-8



abraçados assim
                           sem existir

sinto-te no peito
                           sem tempo

lugar de emoção
                           explodido

arrebatamento
                       cristalino

unida em ti
                   assim existo

asim enlaçada
                        para lá do tempo

dois somos um
                         finalmente



19 de setembro de 2009

adeus

© Marques Tavares Carlos @ www.olhares.com

(pela intensidade do ser)

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tinhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade | Os Amantes sem Dinheiro | 1947-1949