23 de novembro de 2016
22 de novembro de 2016
tempo
deixa-me amar-te
dá-me o tempo
lento, para cresceres
dentro de mim
ocupares o lugar
onde moras, e que ainda não sei.
dá-me o tempo
lento, para cresceres
dentro de mim
ocupares o lugar
onde moras, e que ainda não sei.
21 de novembro de 2016
espaços vazios
quero-te um.
inteiro e completo.
igual a mim.
inteira.
profundamente
unidos nos espaços vazios,
onde apenas cabe o outro.
inteiro e completo.
igual a mim.
inteira.
profundamente
unidos nos espaços vazios,
onde apenas cabe o outro.
15 de outubro de 2016
olhos de sol
chegas de madrugada
olhos claros, no fulgor
do sol do meio dia
entrego as minhas manhãs
todas a ti, em planicies macias
que apenas se adivinham
pelas tardes,
nos teus olhos de sol do meio dia
me perco e me deixo tomar
inundas todos os lugares
da minha pele
com cheiro de mar e beijos
olhos claros, no fulgor
do sol do meio dia
entrego as minhas manhãs
todas a ti, em planicies macias
que apenas se adivinham
pelas tardes,
nos teus olhos de sol do meio dia
me perco e me deixo tomar
inundas todos os lugares
da minha pele
com cheiro de mar e beijos
29 de setembro de 2016
dormem
dormem juntos
finalmente
a menina e o ouriço
enrolados numa bola
no casulo cor de laranja
quentes no corpo e na alma
um só coração
finalmente
a menina e o ouriço
enrolados numa bola
no casulo cor de laranja
quentes no corpo e na alma
um só coração
28 de setembro de 2016
a menina
a menina,
encolhida no escuro
sombria na alma e no corpo,
mantinha-se alerta
rasgada de raiva
e esgotada de tristeza,
a menina,
naquele canto,
sofria de amor
25 de setembro de 2016
fogo líquido
arcos de fogo líquido
entrelaçados entre mim e ti
labaredas em fusão silenciosa
respirar
in "em terra"
entrelaçados entre mim e ti
labaredas em fusão silenciosa
respirar
in "em terra"
23 de setembro de 2016
alma
olho para os teus olhos
de olhos fechados
e vejo dentro da alma
a cor da tua.
é rosa-encarnado-laranja
da cor da minha.
de olhos fechados
e vejo dentro da alma
a cor da tua.
é rosa-encarnado-laranja
da cor da minha.
22 de setembro de 2016
16 de setembro de 2016
na lua do meu corpo
encontra-me na lua do teu corpo
na sede de te encontrar
em momentos infindos
na lua do meu
na sede de te encontrar
em momentos infindos
na lua do meu
8 de setembro de 2016
fecha os olhos
fecha os olhos
sente
o respirar da pele
em nuvens de calor
e ondas perfumadas
fecha os olhos
e olha-me com os dedos
1 de setembro de 2016
cuida-me
chega de mansinho
e cuida-me
toca-me com o olhar
dedos leves
pele morna
cuida-me
e faço-te voar
e cuida-me
toca-me com o olhar
dedos leves
pele morna
cuida-me
e faço-te voar
31 de agosto de 2016
canas
uma mesa pequena, duas cadeiras. o lugar perfeito.
janela aberta para a brisa fresca de este, num dia quente de verão.
um café longo, um bolo delicado. a companhia das letras.
em frente, fora da janela, uma muralha de canas
fecha o horizonte numa mancha de verde.
aqui podia ser qualquer lugar do mundo.
in "momentos perfeitos"
janela aberta para a brisa fresca de este, num dia quente de verão.
um café longo, um bolo delicado. a companhia das letras.
em frente, fora da janela, uma muralha de canas
fecha o horizonte numa mancha de verde.
aqui podia ser qualquer lugar do mundo.
in "momentos perfeitos"
27 de julho de 2016
livro cor de rosa
Tarde quente a lembrar outras tardes, em harmonia de cores internas.
A brisa morna leva as cortinas caramelo. O sofá, acolhedor e reconfortante como chocolate negro. O livro, tão cor de rosa como a sua capa enfeitada de bolachas, leva-me ao país encantado onde todos têm um final feliz, apesar dos precalços e dureza do caminho. É possível a leveza, é possível sonhar e atingir o extraordinário. Com a ajuda de gelado de nozes e limão.
A brisa morna leva as cortinas caramelo. O sofá, acolhedor e reconfortante como chocolate negro. O livro, tão cor de rosa como a sua capa enfeitada de bolachas, leva-me ao país encantado onde todos têm um final feliz, apesar dos precalços e dureza do caminho. É possível a leveza, é possível sonhar e atingir o extraordinário. Com a ajuda de gelado de nozes e limão.
in "momentos perfeitos"
22 de julho de 2016
baleia
Sou o ar e a vertigem imóvel
de ser.
Flutuo na imensidão que me contém
e sou contida
Dentro levo galáxias e tudo o que existe.
Sou. Apenas sou.
20 de julho de 2016
aqui
Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.
Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não por aquilo que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.
Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não por aquilo que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.
Sophia de Mello Breyner Andresen
19 de julho de 2016
solidão
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do meu próprio coração.
Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
o mistério das palavras maduras
ou a brancura de um amor que nos prendia.
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até ouvir
o meu sangue jorrar na voz das fontes.
Eugénio de Andrade
O seu corpo perfeito, linha a linha
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do meu próprio coração.
Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
o mistério das palavras maduras
ou a brancura de um amor que nos prendia.
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até ouvir
o meu sangue jorrar na voz das fontes.
Eugénio de Andrade
15 de julho de 2016
caminho
O caminho vai longo.
E hoje cansado. Gasto.
Uma corrente ininterrupta de cair e levantar.
Colar as partes quebradas.
Amarrar os fios invisíveis da fé.
Convocar a coragem de voltar a ser.
Juntar os restos da força até ser uma vontade.
Pedaços espalhados de mim.
Sou, serei, inteira de novo.
in "caminhos das pedras"
E hoje cansado. Gasto.
Uma corrente ininterrupta de cair e levantar.
Colar as partes quebradas.
Amarrar os fios invisíveis da fé.
Convocar a coragem de voltar a ser.
Juntar os restos da força até ser uma vontade.
Pedaços espalhados de mim.
Sou, serei, inteira de novo.
in "caminhos das pedras"
14 de julho de 2016
basta
rasga-me a voz a garganta
o som sufocado,
preso no corpo, exausto
de tanto silêncio, gritar
num sussurro
basta
o som sufocado,
preso no corpo, exausto
de tanto silêncio, gritar
num sussurro
basta
3 de julho de 2016
sem fé
não existes
uma nuvem fugidia
todos os esforços de te alcançar
terminam em dor
exausta, sem fé
tanta vontade gasta
em encontrar nada
perdida de novo
uma nuvem fugidia
todos os esforços de te alcançar
terminam em dor
exausta, sem fé
tanta vontade gasta
em encontrar nada
perdida de novo
2 de julho de 2016
tortura
a tortura imparável
da solidão
rói os ossos e a pele
a carne derrama-se
em águas sem fim
in "o tigre e outras marés"
30 de junho de 2016
ar
inspiro e o ar não entra
expiro e o ar não sai
que faço agora?
já não tenho mais corpo
cortado de novo
sem respirar
expiro e o ar não sai
que faço agora?
já não tenho mais corpo
cortado de novo
sem respirar
8 de junho de 2016
29 de abril de 2016
ondas
um mundo de água por dentro
uma fina capa apenas mantém a forma
onde crescem peixes do ar e unicórnios de flores
balança numa ginga ritmada
ao som das voltas em torno do sol
balança a água
ondas sobem e baixam
balançam os peixes e os unicórnios
as flores, as ondas sobem e baixam
sobe uma onda, quebra a fina capa
a água espalha-se pelo vazio
espaço ocupado agora
no "mundo d'água"
uma fina capa apenas mantém a forma
onde crescem peixes do ar e unicórnios de flores
balança numa ginga ritmada
ao som das voltas em torno do sol
balança a água
ondas sobem e baixam
balançam os peixes e os unicórnios
as flores, as ondas sobem e baixam
sobe uma onda, quebra a fina capa
a água espalha-se pelo vazio
espaço ocupado agora
no "mundo d'água"
14 de abril de 2016
gota a gota
gotas rosa e laranja
caem sobre a minha pele
devagar dissolvem a fina capa
e espalham-se por todos os recantos
em ondas de amor e cheiro de canela
no "mundo d'água"
caem sobre a minha pele
devagar dissolvem a fina capa
e espalham-se por todos os recantos
em ondas de amor e cheiro de canela
no "mundo d'água"
13 de abril de 2016
31 de março de 2016
30 de março de 2016
28 de março de 2016
mãos
pelas tuas mãos passa a minha pele
e por elas,
não sei o que fazer das minhas
in "terra em mim"
e por elas,
não sei o que fazer das minhas
in "terra em mim"
23 de março de 2016
22 de março de 2016
toque
tempo suspenso
um toque que mal toca
na intensidade e
respiração profunda
transmutação da pele
in "terra em mim"
um toque que mal toca
na intensidade e
respiração profunda
transmutação da pele
in "terra em mim"
8 de março de 2016
rotina
Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Eugénio de Andrade
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Eugénio de Andrade
1 de março de 2016
Lembra-me um sonho lindo
Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada
Canta, rouxinol, canta, não me dês penas
Cresce, girassol, cresce entre açucenas
Afaga-me o corpo todo, se te pertenço
Rasga-me o ventre ardendo em fumo de incenso
Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada
Ai! Como eu te quero! Ai! De madrugada!
Ai! Alma da terra! Ai! Linda, assim deitada!
Ai! Como eu te amo! Ai! Tão sossegada!
Ai! Beijo-te o corpo! Ai! Seara tão desejada!
Fausto Bordalo Dias, letra "Lembra-me um sonho lindo" in "Por este Rio Acima"
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada
Canta, rouxinol, canta, não me dês penas
Cresce, girassol, cresce entre açucenas
Afaga-me o corpo todo, se te pertenço
Rasga-me o ventre ardendo em fumo de incenso
Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada
Ai! Como eu te quero! Ai! De madrugada!
Ai! Alma da terra! Ai! Linda, assim deitada!
Ai! Como eu te amo! Ai! Tão sossegada!
Ai! Beijo-te o corpo! Ai! Seara tão desejada!
Fausto Bordalo Dias, letra "Lembra-me um sonho lindo" in "Por este Rio Acima"
18 de fevereiro de 2016
o que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
15 de fevereiro de 2016
nada
nada
vazio
absolutamente nada
até o vazio entre galáxias está pleno de ligações
in "caminho das pedras"
13 de fevereiro de 2016
verde esmeralda
Vento vagabundo
Rumores de folhas e águas correntes,
aroma de chuva e terra
Raízes profundas
entrelaçadas em mim
atentas, pulsantes.
Verde esmeralda,
húmido, suave e quente
Que me leva.
in "caminhos do vento"
10 de fevereiro de 2016
vem sentar-te comigo
![]() |
| d'aprés kenglye |
vem sentar-te
comigo, querido
à beira rio
sentir
a água passar debaixo
dos pés
o calor do sol nos
tornozelos
vem sentar-te
comigo, querido
a ver os peixes
preguiçarem.
sons de sapos e
ovelhas
o dia que não
termina e, contudo, se move.
in “caminhos do vento”
9 de fevereiro de 2016
sossego
o sossego não me larga
esta paz nos pés
larga na cintura
balouçar na rede da tarde
a brisa morna no cabelo
leves ondulações na pele
quieta, deixo o tempo
que não passa, nem fica
esta paz nos pés
larga na cintura
balouçar na rede da tarde
a brisa morna no cabelo
leves ondulações na pele
quieta, deixo o tempo
que não passa, nem fica
mão em mão
in “caminhos do vento”
in “caminhos do vento”
8 de fevereiro de 2016
lua nova
Quando a lua nova chega
Posso enfim descansar
Largar as agruras das outras luas
Deitar-me no prado dos teus olhos
E dormir no ninho de penas suaves
Que construíste para mim
in "caminhos do vento"
5 de fevereiro de 2016
perigo
o que és?
esta paz nas ancas,
no ar do peito.
o que me fazes?
sei do perigo e não
o sinto,
só quietude.
in “caminhos do vento”
esta paz nas ancas,
no ar do peito.
o que me fazes?
sei do perigo e não
o sinto,
só quietude.
in “caminhos do vento”
14 de novembro de 2015
sombra na luz
a sombra manchada de luz
a luz enfeitada de sombra
a perfeição do imperfeito
a beleza do sombrio
in "árvores de mim"
a luz enfeitada de sombra
a perfeição do imperfeito
a beleza do sombrio
in "árvores de mim"
8 de novembro de 2015
fogueira de mim
Vem sentar-te à sombra da minha fogueira.
Sentir o fresco da noite das costas
e o calor de mim por todo o corpo
in "árvores de mim"
Sentir o fresco da noite das costas
e o calor de mim por todo o corpo
in "árvores de mim"
6 de novembro de 2015
flores dos cactos
A floresta rumoreja
em espasmos crescentes
Cresce e floresce
perante os meus olhos
como as flores dos cactos
Numa noite
nasce e morre, feliz.
em espasmos crescentes
Cresce e floresce
perante os meus olhos
como as flores dos cactos
Numa noite
nasce e morre, feliz.
in "árvores de mim"
10 de outubro de 2015
aspiração
Rios soltam risos e gorjeios
Correm velozes nas veias
da floresta
As árvores solenes
entretêm-se com a agitação
e aspiram a também ser rio
in "árvores de mim"
Correm velozes nas veias
da floresta
As árvores solenes
entretêm-se com a agitação
e aspiram a também ser rio
in "árvores de mim"
4 de outubro de 2015
histórias
As árvores sussurram
fantasias
Histórias inventadas
de princesas há muito mortas
Quem dera ser uma história
contada por mim
em alegres madrigais
fantasias
Histórias inventadas
de princesas há muito mortas
Quem dera ser uma história
contada por mim
em alegres madrigais
in "árvores de mim"
14 de setembro de 2015
dois
e se eu for outro?
serás tu?
estarás comigo
sendo mudado?
esta fluidez de ser
ou deixar de ser
a dança de equilíbrio
e transformação
de dois
in "caminhos do vento"
serás tu?
estarás comigo
sendo mudado?
esta fluidez de ser
ou deixar de ser
a dança de equilíbrio
e transformação
de dois
in "caminhos do vento"
1 de setembro de 2015
terra
Serei terra a ser arada
Alimento para prados
árvores e melros
Sentir a abundância
rica de abelhas e caracóis
a crescer de mim e em mim
Quero ser este meio
fecundo exuberante
Alimento para prados
árvores e melros
Sentir a abundância
rica de abelhas e caracóis
a crescer de mim e em mim
Quero ser este meio
fecundo exuberante
Um borbulhar de vida
Ininterrupta constante
prazerosa
in “árvores de mim”
Ininterrupta constante
prazerosa
in “árvores de mim”
14 de agosto de 2015
ser árvore
Árvore poderosa de mim
ligada ao fundo da terra
e a toda a floresta
por raízes fortes e intensas
Em ti, corre o alimento rico
trazido das profundezas
e criado do sol
Alquimia fluida
Rios de seiva percorrem
todo este corpo
ininterruptamente
Abraçam o vento, o sol
as tempestades geladas
Fluindo sempre
Sendo sempre árvore
Essa decisão não decidida
Simplesmente aceite
in “árvores de mim”
ligada ao fundo da terra
e a toda a floresta
por raízes fortes e intensas
Em ti, corre o alimento rico
trazido das profundezas
e criado do sol
Alquimia fluida
Rios de seiva percorrem
todo este corpo
ininterruptamente
Abraçam o vento, o sol
as tempestades geladas
Fluindo sempre
Sendo sempre árvore
Essa decisão não decidida
Simplesmente aceite
in “árvores de mim”
17 de julho de 2015
lago
Lagos serenos reflectem a lua
Uma brisa leve eriça as costas da água
em pequenos risos
Esta paz de estar aqui, neste lago
Eu e a lua, o silêncio cheio de som
in “árvores de mim”
Uma brisa leve eriça as costas da água
em pequenos risos
Esta paz de estar aqui, neste lago
Eu e a lua, o silêncio cheio de som
in “árvores de mim”
16 de julho de 2015
metal
O denso metal
Incandesce
E transforma-se
Derretido se espraia
Nos espaços vazios
Quente e meloso
Em risos se fica
in “árvores de mim”
Incandesce
E transforma-se
Derretido se espraia
Nos espaços vazios
Quente e meloso
Em risos se fica
in “árvores de mim”
12 de julho de 2015
quietude
A quietude da serenidade
sem esplendores de fogo
A tranquilidade das árvores
ligadas ao chão e ao céu
Riachos de seiva
percorrem estes corpos
inexoravelmente crescentes
com aparente lentidão
O propósito de ser
determinado e aceite
in “árvores de mim”
sem esplendores de fogo
A tranquilidade das árvores
ligadas ao chão e ao céu
Riachos de seiva
percorrem estes corpos
inexoravelmente crescentes
com aparente lentidão
O propósito de ser
determinado e aceite
in “árvores de mim”
19 de junho de 2015
casulo
quando me rasgarei por fim?
libertar-me deste casulo que me sufoca
quando deixarei de aguardar o mudar dos tempos
e dos terrores secretos.
nascer de novo transformada
esta impaciência por fim calma
in “memórias das pedras”
libertar-me deste casulo que me sufoca
quando deixarei de aguardar o mudar dos tempos
e dos terrores secretos.
nascer de novo transformada
esta impaciência por fim calma
in “memórias das pedras”
16 de junho de 2015
passado
o tempo passa inexorável
as marcas ficam em mim
cicatrizes que não aceito
o passado que não parece passar
de tão presente é
in “caminho das pedras”
as marcas ficam em mim
cicatrizes que não aceito
o passado que não parece passar
de tão presente é
in “caminho das pedras”
14 de junho de 2015
caminho das pedras
Volto de novo
aos velhos caminhos
As pedras
Anseio pela areia macia e quente
um trilho verdejante
um prado
Não estas pedras,
aguçadas
Rasgam os pés e o ânimo
in "caminho das pedras"
13 de junho de 2015
sem rumo
ventos me trazem
ventos me levam
ao sabor destas correntes
estranhas
parece vida sem rumo
será que existe um fim
será que é esse o caminho
o que vejo à minha volta
rodopiando nestes ventos
contraditórios
in “memórias das pedras”
11 de junho de 2015
oceano
De tanto dizer
já nada sobra
Um vazio
que parece paz
instala-se
Não é pacífico
este oceano
Dormente
contido. Irá
transbordar de novo
Enraivecido
in “memórias das pedras”
8 de junho de 2015
longe
Onde vão estas águas atrás dos meus olhos
Como saem de mim
Lavadas
Onde vão estes ventos inquietos e frios
Para longe de mim
Desterrados
in “memórias das pedras”
Como saem de mim
Lavadas
Onde vão estes ventos inquietos e frios
Para longe de mim
Desterrados
in “memórias das pedras”
28 de maio de 2015
ouriço
O meu pequeno ouriço
Eriçado, bola de picos
Partiu todos os espinhos
Agora, nu, dorme em paz
Num casulo laranja
Quente por fim
Eriçado, bola de picos
Partiu todos os espinhos
Agora, nu, dorme em paz
Num casulo laranja
Quente por fim
in "árvores de mim"
18 de maio de 2015
reserva
sem palavras me deixo ficar
apenas sinto
apenas sinto
a minha reserva
em relação ao mundo.
separada
qual o meu lugar?
quem me encontrará
neste local distante e ermo?
in "caminho das pedras"
em relação ao mundo.
separada
qual o meu lugar?
quem me encontrará
neste local distante e ermo?
in "caminho das pedras"
14 de maio de 2015
caminho das pedras
Tantos caminhos de pedras percorri
e eis-me de volta à caverna.
Nómada neste país de imóveis castelos
que me negam a entrada.
Onde irei morar?
Qual é o vento que me vai levar
ao destino de ser casa?
in "caminho das pedras"
10 de maio de 2015
quebrados
Triste por ti
Por mim
Pela vida que te parece cortada
Pelo imenso esforço
a corrigir os défices
Esforço inglório
permanente
a lutar contra joelhos quebrados
e mais...
Esta perda da tua vida
Como te vai ser difícil
construir e lutar ao mesmo tempo
No final, talvez a tristeza seja só minha
E consigas tu
ser e seguir
in "caminhos das pedras"
Por mim
Pela vida que te parece cortada
Pelo imenso esforço
a corrigir os défices
Esforço inglório
permanente
a lutar contra joelhos quebrados
e mais...
Esta perda da tua vida
Como te vai ser difícil
construir e lutar ao mesmo tempo
No final, talvez a tristeza seja só minha
E consigas tu
ser e seguir
in "caminhos das pedras"
6 de maio de 2015
amarras
Como seguir o meu vento
Se estou presa ao chão?
Cordas invisíveis, inexistentes,
Fortes como amarras
Seguram toda esta vontade
Como solto as velas?
Tenho de naufragar todos os barcos
Para poder voar.
in "caminho das pedras"
Se estou presa ao chão?
Cordas invisíveis, inexistentes,
Fortes como amarras
Seguram toda esta vontade
Como solto as velas?
Tenho de naufragar todos os barcos
Para poder voar.
in "caminho das pedras"
1 de maio de 2015
pele de água
Uma pele de água
pesada e interna
desmancha-se e cai
como um trapo velho
Ali fica a inundar os tornozelos
Uma enchente que não
para nem escorre
Continua a subir
até me afogar
em lodo e barcos vazios
in "caminho das pedras"
pesada e interna
desmancha-se e cai
como um trapo velho
Ali fica a inundar os tornozelos
Uma enchente que não
para nem escorre
Continua a subir
até me afogar
em lodo e barcos vazios
in "caminho das pedras"
20 de abril de 2015
tingida de ti
a tua cor tintada em mim
tingida dentro da pele
sou tão estranha sem esta cor
marcada de ti
a verdade é que me faltas
e todas as desculpas justificadas
não me servem
sapatos velhos e gastos
toalhas molhadas no chão
uma voz dentro de mim diz
que me faltas
no ar
tingida dentro da pele
sou tão estranha sem esta cor
marcada de ti
a verdade é que me faltas
e todas as desculpas justificadas
não me servem
sapatos velhos e gastos
toalhas molhadas no chão
uma voz dentro de mim diz
que me faltas
no ar
in "memórias do fogo"
15 de abril de 2015
vem
Meu vento, minha árvore
aqui te espero
Vem depressa,
arrebatar-me
do fogo deste dragão
Meu vento, minha árvore
brisa no coração
Leva-me a ver os mares distantes
Seres de encanto
Envolvida em nuvens
E chamas
in "caminhos do vento"
14 de abril de 2015
grito
Um grito tenta romper
esta lama espessa
e não sai da boca
Peixes a sufocar
ao lado da água
in "caminhos das pedras"
esta lama espessa
e não sai da boca
Peixes a sufocar
ao lado da água
in "caminhos das pedras"
1 de março de 2015
explodir
Prefiro dor intensa, a explodir
Pelo menos sinto, vivo
Em vez desta dor surda constante
Que me rouba, sem piedade, o sentido
in "o tigre e outras marés"
Pelo menos sinto, vivo
Em vez desta dor surda constante
Que me rouba, sem piedade, o sentido
in "o tigre e outras marés"
21 de fevereiro de 2015
compreendo os dias de cinza
Compreendo
finalmente os dias de cinza.
Compreendo com
outro sentir,
de fora, como
embaixadora
numa terra
deserta.
A missão de
explorar o mundo e compreender
os modos dos
outros.
Lamento os dias
da cinza.
Lamento o quebrar
dos ramos e o fogo devastador,
a impossibilidade
de criar uma floresta a partir da secura.
Nem uma pequena árvore
sequer, despida, com 3 folhas.
in "o tigre e outras marés"
19 de fevereiro de 2015
avé maria
avé maria cheia de graça
o senhor está contigo
bendita és entre as mulheres
bendito é o filho do teu ventre
pois foste a escolhida
maria, mãe de todos
intercede por nós
errantes, sem senhor,
sem bençãos e sem filhos
com as tuas mãos cura
a dor do mundo
agora e para sempre
ámen
in "o tigre e outras marés"
17 de fevereiro de 2015
rios de mim
![]() |
| SebastianWagner |
e nenhum deserto
espera por mim
para florir.
Apenas vazio e
rochas agrestes
que não querem a
minha água.
Onde irei
desembocar os meus rios?
As nascentes
borbulham de impaciência
contidas até ao
esmagamento
na espera, até
agora inútil,
de um vale que me
contenha.
in “o tigre e
outras marés”
13 de fevereiro de 2015
águas
Esta tristeza de
ti não sai de mim
Como largo esta
perda?
Perda de mim, das
fantásticas hipóteses do que poderia ter sido.
Perda de ti,
apesar de nem te ter.
Água escorre por
dentro do corpo
Sai pelos pés, de
tão cansada.
in “o tigre e
outras marés”
suave calmo
Suave suave és
Calmo calmo te sinto
E tudo o resto
É apenas minha invenção
Calmo calmo te sinto
E tudo o resto
É apenas minha invenção
in "memórias do fogo"
12 de fevereiro de 2015
11 de fevereiro de 2015
o tigre ferido
o tigre está
ferido
também ele
confunde esta dor com amor
o meu tigre
ronrona
deitado nos lençóis
verdes do prado
in “o tigre e outras marés”
10 de fevereiro de 2015
não me acompanha
o tigre voltou ao
fundo da selva
escondido na
caverna por mais mil anos
ou apenas umas
horas
voltou às sombras
este meu tigre
não me acompanha
fulvo, furtivo
apenas me toma de assalto
estraçalha e
abandona
no chão um resto
destroçado de mim
sem vida em vida
em inegável e
permanente dor
in “o tigre e
outras marés”
9 de fevereiro de 2015
o tigre espreita
o tigre espreita
emboscado
riscas em sombra
e luz
persegue-me por
eras
sinto o seu bafo
nos flancos
sem entender
de onde vem este
mal
num súbito relâmpago
sombra e luz
ataca
salta esmaga-me o
ar
garras rasgam
ossos em farpa,
esfacelada
coração latejando
sangue
o alívio final não
vem
ali fico em dor lancinante
até à eternidade
o meu tigre e eu
presos
neste ritual
infinito
a que estamos
obrigados
por motivos desconhecidos
in “o tigre e
outras marés”
8 de fevereiro de 2015
espadas
![]() |
| syrius |
esta dor
espadas que
cortam
abrem-me de cima a baixo
expondo o que?
apenas dor?
será que o
coração de dor
das igrejas é possível?
alma dorida
será que vai
terminar um dia?
não conheço
outros sinónimos para esta dor
nada se compara,
não há mais palavras
apenas dor.
in “o tigre e
outras marés”
24 de janeiro de 2015
sem sentir
Sem palavras me
deixo ficar
Apenas sentir a
minha reserva
Em relação ao
mundo
Separada
Afinal qual é o
perigo?
Prefiro a dor
intensa a explodir
Pelo menos sinto,
vivo
Em vez desta dor
surda constante
Que me rouba, sem
piedade, o sentido
in “o tigre e
outras marés”
23 de janeiro de 2015
sei de certeza que te vou perder
Sei de certeza
que te vou perder.
Tão certo,
como o movimento
dos planetas não poder ser parado,
ficar sem ti é um
facto.
Esta ideia volta
e volta, em cada vez mais pequenas elipses,
à medida que se
aproxima a hora.
Sei de certeza
que te vou perder.
E a tristeza de
perder quem nunca tive
é demais para o
meu tamanho.
Preciso do caminho
daqui para a lua e mais além
Como se perde o
que nunca se teve?
Como o calor do
sol, que também nunca me pertenceu,
Aqueces-me e estás
no meu céu.
Sem ti, será
noite de novo.
Sem estrelas e sem a dança dos astros,
a tristeza vai
atingir-me,
com a força extraordinária
das estrelas que explodem.
Os restos de mim,
espero,
que sejam
sementes para outro amor.
in “memórias do fogo”
22 de janeiro de 2015
impossibilidade
as
impossibilidades enchem-me de vazio.
se tudo o que sinto
for impossível,
o que resta?
não há mãos, nem
grilos,
nem sequer sapos.
in “o tigre e
outras marés”
21 de janeiro de 2015
20 de janeiro de 2015
tristeza
sangue
espesso quente viscoso
escorre em golfadas
do peito
lágrimas que os olhos não choram
in "o tigre e outras marés"
17 de janeiro de 2015
a tua cor
Da tua cor, a que mais amo
é esta,
rosa-salmão, suave e intensa,
em laivos de carmim luminoso,
um fogo ardendo
macio.
O calor desta
cor,
brilha escondido
aos olhos do mundo,
até de ti.
É esta cor que me
aquece e encanta.
Imagino as
infinitas possibilidades,
e perco-me nesse
mar de fantasia.
in “memórias do fogo”
16 de janeiro de 2015
a alegria de te ver
![]() |
| Irondoom |
a alegria de te
ver
como grilos
escondidos
nas noites de
verão
pequenos
sobressaltos de som
que tem
necessariamente de se manter
na sombra
in “memórias do fogo”
15 de janeiro de 2015
decisão
Gosto de sentir a
decisão formar-se
Crescer em
rumores internos
Gestos iniciados
leves
Por fim avançar
suavemente
Decidido
in “memórias do fogo”
14 de janeiro de 2015
simples gostar de ti
gosto das coisas
simples de ti.
gostava de mais.
mais coisas
simples,
para fazer
crescer
o quanto gosto de
ti.
in “memórias do fogo”
8 de janeiro de 2015
formadora de fogueiras
![]() |
| Irondoom |
Como alimentar um
pequeno fogo para que cresça
Assim estou eu
contigo
Formadora de
fogueiras
Atiçadora de
incêndios
Deixada para trás
Por um vento novo
Que leva
finalmente todo esse esplendor para longe
in “memórias do fogo”
6 de janeiro de 2015
corda
Apenas pedaços
sobram
Um sorriso
fugidio
Onde as
possibilidades moram
Uma inocência
macia
Alguma hesitação
Delicadeza
Pedaços de corda
ténue
Que me mantém
ligada a ti
in “memórias do fogo”
2 de janeiro de 2015
suspenso
Sublimar seria
importantemente útil
Dançar até todo o
tempo terminar
Ter essa alegria
de voar
O momento
suspenso eternamente
in “memórias do fogo”
14 de novembro de 2014
no ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me infiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.
Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa
8 de fevereiro de 2014
quando chega uma carta tua
Carta de Sigmund Freud a Martha Bernays, 9 de Outubro 1883 (excerto)
7 de fevereiro de 2014
retrato ardente
Robert Farber
Entre os teus lábios
é que a loucura acode
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.
Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"
Entre os teus lábios
é que a loucura acode
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.
Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"
2 de fevereiro de 2013
aquela triste e leda madrugada
![]() |
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade,
quero que seja sempre celebrada.
Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se d`ua outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.
Ela só viu as lágrimas em fio,
que duns e doutros olhos derivadas,
s`acrescentaram em grande e largo rio;
Ela viu as palavras magoadas,
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso as almas condenadas.
Luís de Camões
6 de maio de 2011
compulsão
as mesmas palavras de que não gosto,
são o único modo de expressar estes pensamentos circulares.
tenho de os registar obrigatoriamente.
há tanto de mim já perdido
não suporto que mais estes pedaços caiam no esquecimento.
lembrar-me de mim, como fui,
o que acontece,
para que não me pareça que sou apenas uma fantasia
de alguém que já me esqueceu.
in “o tigre e outras marés”
5 de maio de 2011
belas palavras vazias
Não está em mim o
dom de entrelaçar palavras em harmoniosos hinos
de louvor a
qualquer coisa realmente maravilhosa.
Palavras bonitas,
belas frases recheadas de vazio,
aparentemente
suaves e dedicadas,
escondem a
crueldade agressiva da condescendência
disfarçada a
intenção enganadora de dominar.
Cada vez mais,
prefiro belos actos a belas palavras,
embora uns e
outros sejam passíveis de engano.
Mas é mais
possível continuar na infinita produção
de belas palavras
do que de belos actos.
Fazer é mais
difícil do que dizer e quem muito fala belas palavras
vive da preguiça
do pensamento alheio e da falta de esforço próprio
na autenticidade
de fazer coincidir as palavras com os actos
e o que
verdadeiramente é sentido.
in “o tigre e
outras marés”
20 de setembro de 2009
em braços
Gustav Klimt | The Kiss | 1907-8
abraçados assim
sem existir
sinto-te no peito
sem tempo
lugar de emoção
explodido
arrebatamento
cristalino
unida em ti
assim existo
asim enlaçada
para lá do tempo
dois somos um
finalmente
abraçados assim
sem existir
sinto-te no peito
sem tempo
lugar de emoção
explodido
arrebatamento
cristalino
unida em ti
assim existo
asim enlaçada
para lá do tempo
dois somos um
finalmente
19 de setembro de 2009
adeus
© Marques Tavares Carlos @ www.olhares.com
(pela intensidade do ser)
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tinhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade | Os Amantes sem Dinheiro | 1947-1949
(pela intensidade do ser)
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tinhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade | Os Amantes sem Dinheiro | 1947-1949
3 de janeiro de 2007
19 de dezembro de 2005
27 de outubro de 2005
o primeiro som
Joseph Haydn
Sinfonia n.º 94 em Sol Maior, segundo andamento: Andante
http://www.goclassic.co.kr/mp3/Haydn_Surprise_II.mp3
Sinfonia n.º 94 em Sol Maior, segundo andamento: Andante
http://www.goclassic.co.kr/mp3/Haydn_Surprise_II.mp3
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