na firme e sólida presença do teu amor
o suporte ao atravessar a tempestade
posso render-me e ser, só ser
passear o tempo
passear sem destino mas com sentido, perder o tempo a ganhar vida
2 de junho de 2023
30 de maio de 2023
o fogo entre
no campo de fogo aceso
que me liga a ti
sinto as linhas acesas
da teia de eros
entrelaçadas no coração
que me liga a ti
sinto as linhas acesas
da teia de eros
entrelaçadas no coração
29 de maio de 2023
gota
o macio
das pontas dos teus dedos
desliza
com a lentidão de uma gota de óleo
pele a arder
in "do corpo e do tempo"
das pontas dos teus dedos
desliza
com a lentidão de uma gota de óleo
pele a arder
in "do corpo e do tempo"
28 de dezembro de 2022
Nascer, Viver, Morrer
Nascer
Nascer outra vez bem no meio da vida
De fato acordar e enxergar cada dia
As coisas existem com força e magia
E eu sou a consciência da coisa que eu sou
Eu quero e eu amo e eu posso e eu vou
Viver
Na realidade que é onde é possível
Às vezes sem nem perceber que está vivo
Às vezes na barra, às vezes na boa
No mundo, na mente, no sonho e no ser
No raro momento infinito viver
Morrer
Que a ausência é a presença do inexistente
Do silêncio com seu volume gigante
Limite pra além do azar e da sorte
Que prova existir vida antes da morte
Que une e separa o todo da parte
Nascer Viver Morrer Nascer
Tim Bernardes in Mistificar
https://www.youtube.com/watch?v=UHrAiiDpxUI
27 de dezembro de 2022
Quando for
Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão de bailar
As quatro estações à minha porta.
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.
Sophia de Mello Breyner
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão de bailar
As quatro estações à minha porta.
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.
Sophia de Mello Breyner
9 de fevereiro de 2021
semente
durante tanto tempo
andei cega
enganada, a sentir-me semente
à procura de ti para florescer
compreendo agora que
sou semente, terra, árvore, céu
e tudo entre eles
in "árvores de mim"
11 de outubro de 2019
tiger
by my side strength walks
so i can tread lightly
and be free
don't get me wrong
maybe i look like a butterfly
but i have a fiercely loyal tiger inside
a meu lado caminha a força
para que eu possa pisar levemente
e ser livre
mas não se deixem enganar
posso parecer uma borboleta
mas tenho um tigre ferozmente leal em mim
in "tigre e outras marés"
don't get me wrong
maybe i look like a butterfly
but i have a fiercely loyal tiger inside
a meu lado caminha a força
para que eu possa pisar levemente
e ser livre
mas não se deixem enganar
posso parecer uma borboleta
mas tenho um tigre ferozmente leal em mim
in "tigre e outras marés"
10 de outubro de 2019
ausência
já chorei tudo na tua presença
a dor, a tua partida, o fim de ti
já não tenho mais esperança
nem ânimo para chorar agora
fica a saudade e a
tristeza do vazio que resta
a dor, a tua partida, o fim de ti
já não tenho mais esperança
nem ânimo para chorar agora
fica a saudade e a
tristeza do vazio que resta
2 de maio de 2019
Oração matinal
Possa eu ser a guarda para todos os que necessitam de proteção
O guia para os que estão no caminho
Um barco, uma jangada, uma ponte para os que desejam atravessar a corrente
Possa eu ser uma luz na escuridão
Um lugar de descanso para os esgotados
um remédio de cura para todos os doentes
um vaso de abundância, uma árvore de milagres
E para a infinita multitude de seres vivos
possa trazer sustento e despertar
duradouros como a terra e o céu
Até todos os seres serem libertos do sofrimento
E todos estarem despertos
Escrito por Shantideva, monge budista da tradição Mahayana que viveu cerca de 700 AD.
O guia para os que estão no caminho
Um barco, uma jangada, uma ponte para os que desejam atravessar a corrente
Possa eu ser uma luz na escuridão
Um lugar de descanso para os esgotados
um remédio de cura para todos os doentes
um vaso de abundância, uma árvore de milagres
E para a infinita multitude de seres vivos
possa trazer sustento e despertar
duradouros como a terra e o céu
Até todos os seres serem libertos do sofrimento
E todos estarem despertos
Escrito por Shantideva, monge budista da tradição Mahayana que viveu cerca de 700 AD.
Devoto praticante, criou o Bodhicaryavatara ou Modo de Vida de Bodhisattva.
13 de fevereiro de 2019
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
13 de janeiro de 2019
fusão
antes de chegar
já me fundi
pouso os lábios nos teus
e percorro o caminho para dentro
o centro quente e pulsante
que te espera
in "do corpo e do tempo"
já me fundi
pouso os lábios nos teus
e percorro o caminho para dentro
o centro quente e pulsante
que te espera
in "do corpo e do tempo"
12 de janeiro de 2019
possibilidades
sinto as possibilidades
como um chegar a casa
tudo o que recebo
tudo o que me recebe
és todas as possibilidades
por fim, reunidas
por fim, amor
como um chegar a casa
tudo o que recebo
tudo o que me recebe
és todas as possibilidades
por fim, reunidas
por fim, amor
14 de novembro de 2018
wild geese
Não tens de ser bom
Não tens de percorrer de joelhos
Cem milhas do deserto, arrependido.
Só tens de deixar que o animal meigo do teu corpo ame o que ama.
Fala-me do desespero, do teu, e eu falo-te do meu.
Entretanto, o mundo continua.
Entretanto, o sol e os seixos límpidos da chuva
Movem-se pelas paisagens,
Pelas pradarias e pelas árvores profundas,
Pelas montanhas e pelos rios.
Entretanto, os gansos selvagens, bem alto no céu tão azul, regressam novamente a casa.
Sejas quem fores, por mais que só estejas,
O mundo oferece-se à tua imaginação,
Chama-te como aos gansos selvagens, agreste e excitante -
Anunciando, uma e outra vez, o teu lugar
Na família das coisas.
Mary Oliver - “Wild Geese”
Não tens de percorrer de joelhos
Cem milhas do deserto, arrependido.
Só tens de deixar que o animal meigo do teu corpo ame o que ama.
Fala-me do desespero, do teu, e eu falo-te do meu.
Entretanto, o mundo continua.
Entretanto, o sol e os seixos límpidos da chuva
Movem-se pelas paisagens,
Pelas pradarias e pelas árvores profundas,
Pelas montanhas e pelos rios.
Entretanto, os gansos selvagens, bem alto no céu tão azul, regressam novamente a casa.
Sejas quem fores, por mais que só estejas,
O mundo oferece-se à tua imaginação,
Chama-te como aos gansos selvagens, agreste e excitante -
Anunciando, uma e outra vez, o teu lugar
Na família das coisas.
Mary Oliver - “Wild Geese”
12 de novembro de 2018
não pode ser só isto
Mas não pode ser só isto
O Verão partiu
E nunca devia ter vindo.
Será quente o sol
Mas não pode ser só isto.
Tudo veio para partir,
Nas minhas mãos tudo caiu,
Corola de cinco pétalas,
Mas não pode ser só isto.
Nenhum mal se perdeu,
Nenhum bem foi em vão,
À luz clara tudo arde
Mas não pode ser só isto.
Agarra-me a vida
Sob a sua asa intacto,
Sempre a sorte do meu lado,
Mas não pode ser só isto.
Nem uma folha se consumiu
Nem uma vara quebrada...
Vidro límpido é o dia,
Mas não pode ser só isto.
Arseni Tarkovsky (trad. Paulo da Costa Domingos)
O Verão partiu
E nunca devia ter vindo.
Será quente o sol
Mas não pode ser só isto.
Tudo veio para partir,
Nas minhas mãos tudo caiu,
Corola de cinco pétalas,
Mas não pode ser só isto.
Nenhum mal se perdeu,
Nenhum bem foi em vão,
À luz clara tudo arde
Mas não pode ser só isto.
Agarra-me a vida
Sob a sua asa intacto,
Sempre a sorte do meu lado,
Mas não pode ser só isto.
Nem uma folha se consumiu
Nem uma vara quebrada...
Vidro límpido é o dia,
Mas não pode ser só isto.
Arseni Tarkovsky (trad. Paulo da Costa Domingos)
24 de setembro de 2018
escrito na pele
escreve na minha pele
as palavras do amor
tecidas com a lentidão
das horas sem fim
dedos entrançados
com fios de eternidade
in "do corpo e do tempo"
as palavras do amor
tecidas com a lentidão
das horas sem fim
dedos entrançados
com fios de eternidade
in "do corpo e do tempo"
12 de junho de 2018
sonho
eu sou a luz e o sonho
a sombra de tudo o que é
sonho e no sonho me levo
asas largas, olhos na distância
vejo terras de casas brancas
e utopias verdes
trago para perto
a harmonia de apenas ser
a sombra de tudo o que é
sonho e no sonho me levo
asas largas, olhos na distância
vejo terras de casas brancas
e utopias verdes
trago para perto
a harmonia de apenas ser
6 de junho de 2018
libertação
aqui neste lugar sem tempo
onde apenas sou
a minha alma espera
pelo momento certo
de se libertar das amarras
de todas as histórias que viveu
onde apenas sou
a minha alma espera
pelo momento certo
de se libertar das amarras
de todas as histórias que viveu
20 de abril de 2018
coração
Como as células de um coração
assim somos nós e tudo o que existe,
a ressoar em conjunto.
Uma só, não seria um coração.
Cada uma, separada, não bateria em ligação.
Juntas são uma unidade composta.
Um coração, muitas partes a bater em uníssono
cumprindo o seu desígnio.
assim somos nós e tudo o que existe,
a ressoar em conjunto.
Uma só, não seria um coração.
Cada uma, separada, não bateria em ligação.
Juntas são uma unidade composta.
Um coração, muitas partes a bater em uníssono
cumprindo o seu desígnio.
10 de abril de 2018
voltar a mim
Levaste a água, o fogo, os pés,
quase o corpo todo.
Resta pouco.
O coração, a garganta, a boca
gritam, não!
Basta.
Vou voltar a ser eu.
quase o corpo todo.
Resta pouco.
O coração, a garganta, a boca
gritam, não!
Basta.
Vou voltar a ser eu.
1 de fevereiro de 2018
não preciso de ti
não preciso de ti
pouco em mim precisa que me ampares,
me completes, me salves,
ou até... que faças reparações em casa.
não preciso de ti
mas quero-te
quero a tua presença igual,
cumplice em amor
pouco em mim precisa que me ampares,
me completes, me salves,
ou até... que faças reparações em casa.
não preciso de ti
mas quero-te
quero a tua presença igual,
cumplice em amor
27 de janeiro de 2018
partícula de universo
tudo o que sou hoje
já foi outros
desde o início deste universo
vêm os átomos no meu corpo
repositórios de memórias
que não são minhas
imagens conflituosas, emoções
multiplas vozes, muitas vidas
histórias que não vivi
dores que vêm de longe
e as alegrias também
já foi outros
desde o início deste universo
vêm os átomos no meu corpo
repositórios de memórias
que não são minhas
imagens conflituosas, emoções
multiplas vozes, muitas vidas
histórias que não vivi
dores que vêm de longe
e as alegrias também
9 de janeiro de 2018
saudades
saudades de ser casa
encontrar a metade de mim
voltar ao meu mar
e dissolver-me na calorosa água da paz
encontrar a metade de mim
voltar ao meu mar
e dissolver-me na calorosa água da paz
7 de novembro de 2017
O Pai Nosso
Por dois milênios o Pai Nosso é a principal prece de todos os cristãos. Ainda que muitos a recitem de forma mecânica e apressada, um número crescente de devotos está se tornando cônscio de que esse tesouro, que nos foi legado diretamente pelo Senhor, é uma iguaria sem par que merece ser saboreada lenta e conscientemente.
Ao meditarmos sobre o significado mais profundo das frases e até mesmo de cada palavra da oração do Senhor, verificamos que elas realmente encobrem um profundo tesouro. Alguns estudiosos verificaram que o Pai Nosso, em sua versão original em aramaico, apresenta uma gama bem mais ampla de significados que não são percebidos nas traduções para as línguas modernas. Para atender o anseio daqueles que buscam conhecer os ensinamentos de Jesus em sua forma mais pura, procuramos resgatar a versão original como provavelmente foi ensinada pelo Mestre.
O aramaico era a língua em que Jesus ministrava seus ensinamentos. Como esses ensinamentos foram conservados pela tradição oral por várias décadas em aramaico, alguns estudiosos acreditam que eles foram primeiramente escritos naquela língua e só mais tarde traduzidos para o grego.
Com a tradução para o grego, e mais tarde para o latim e outras línguas européias, surgiram vários problemas na transmissão dos ensinamentos em virtude da estrutura destas línguas. O aramaico é uma língua antiga e bastante sintética; suas palavras podem ter diferentes significados como ocorre com suas línguas irmãs, hebraico e árabe. Ao contrário do grego, o aramaico não tem divisões rígidas entre meios e fins, ou entre qualidades internas e ação externa. Ambos estão sempre presentes.[1] O grego só foi introduzido no oriente médio bem mais tarde: os vários significados de cada palavra em aramaico eram expressos por duas ou mais palavras diferentes em grego. Poderíamos dizer que as palavras em aramaico são ricas em significado enquanto o grego é uma língua rica em palavras.
Quando os lingüistas comparam os textos bíblicos existentes em aramaico e em grego, verificam que o texto grego invariavelmente limita o significado mais profundo e abrangente da versão original em aramaico. Isso explica parte das dificuldades que os cristãos têm para entender os ensinamentos do Senhor. O significado mais amplo das palavras de Jesus foi limitado, e até mesmo distorcido em alguns casos, com as diferentes traduções e editorações ao longo dos séculos. Esse é um sério problema para o devoto, pois Jesus usava os diferentes significados de suas palavras para despertar na alma de seus ouvintes uma sintonia com a profunda verdade transformadora que ele procurava transmitir sob a aparência de coisas simples. Verificamos que muitas das confusões idiomáticas nas parábolas de Jesus na Bíblia em grego, tornam-se claras para o leitor do texto em aramaico, em vista do significado mais amplo das palavras que ele usou.
Felizmente ainda existe uma versão da Bíblia em aramaico, ainda que pouco conhecida. Ela é referida como Peshitta, sendo ainda hoje adotada pela Igreja do Oriente, principalmente em partes da Síria e da Armênia. A propósito, a palavra peshitta em aramaico significa “simples”, “sincero” e “verdade.”
Uma leitura meditativa da versão do Pai Nosso de acordo com o original em aramaico, pode revelar outros significados profundos que não foram conservados na versão tradicional da oração do Senhor. O texto abaixo foi adaptado do livreto do estudioso Neil Douglas-Klotz, “Orações do Cosmo”[2] em cotação com outras versões da tradução do aramaico.
O PAI NOSSO
(do original em aramaico)
Ó Fonte da Manifestação! Alento da vida!
Pai-Mãe do Cosmo!
Faz a Tua Luz brilhar dentro de nós,
para que possamos torná-la útil.
Ajuda-nos a seguir nosso caminho
movidos apenas pelo sentimento que emana de Ti.
Que nosso eu possa estar em sintonia contigo,
para que caminhemos com realeza com todos
os outros seres criados.
Estabelece Teu Reino de unidade agora.
Que Teu desejo e os nossos sejam um só,
em toda a luz, assim como em todas as formas.
Dá-nos o que precisamos cada dia, em pão e compreensão.
Desfaz os laços dos erros que nos prendem,
assim como nós soltamos as amarras que mantemos da culpa dos outros.
Não permita que a superficialidade e a aparência das coisas do mundo nos iludam.
Mas liberta-nos de tudo o que nos aprisiona.
E não nos deixes sermos tomados pelo esquecimento
de que de Ti nasce a vontade que tudo governa,
o poder e a força viva de todo movimento,
e a melodia que tudo embeleza
e de idade em idade tudo renova.
Amém.
O PAI NOSSO
(em aramaico transliterado)
Abwun d’bwashmaya
Nethqadash shmakh
Teytey malkuthakh
Nehwey tzevyanach aykanna d’bwashmaya aph b’arha
Hawylan lachma d’sunqanan yaomana.
Washboqlan khaubayn (wakhtahayn) aykana daph khnan shbwoqan l’khayyabayn.
Wela tahlan l’nesyuna
Ela patzan min bisha.
Metol kilakhie malkutha wahayla wateshbukta
L’ahlam almin.
Ameyn.
Abwun d’bwashmaya
Nethqadash shmakh
Teytey malkuthakh
Nehwey tzevyanach aykanna d’bwashmaya aph b’arha
Hawylan lachma d’sunqanan yaomana.
Washboqlan khaubayn (wakhtahayn) aykana daph khnan shbwoqan l’khayyabayn.
Wela tahlan l’nesyuna
Ela patzan min bisha.
Metol kilakhie malkutha wahayla wateshbukta
L’ahlam almin.
Ameyn.
Na sua versão em aramaico, a oração do Senhor tem a força de uma invocação.
O que está sendo invocado é a Fonte da Manifestação, que é também o Alento da Vida. Ainda que seja referido como o Pai-Mãe do Cosmo, as duas polaridades de todos agentes criadores, nossos geradores celestiais não são referidos como os criadores do cosmo, mas sim como a Fonte da Manifestação. O mundo em que vivemos, nos movemos e temos nosso ser não é uma ‘criação’ divina, no sentido de estar separado de seu criador, mas sim é uma manifestação, portanto, uma extensão ou um reflexo de sua fonte divina original. Tudo o que existe é uma extensão ou expressão de Deus; o Pai-Mãe celestial é imanente em todos os seres, é o sopro da vida que permanece em todos nós.
A natureza imanente do divino genitor é geralmente referida como um cerne de luz em todos os seres, ainda que na grande maioria essa luz permaneça latente. O devoto invoca ao Pai/Mãe celestial para que faça brilhar a luz divina em seu interior. O brilho da luz interior, geralmente conhecido como iluminação, ocorre quando o Cristo interior muito apropriadamente vem à luz. Somente quando a luz de Cristo está atuando conscientemente em nós, é que nos tornamos verdadeiramente útil ao mundo, promovendo a paz, iluminando e amando incondicionalmente a todos os seres.
O sentimento que emana do Pai-Mãe celestial é o amor, a energia divina que harmoniza toda natureza bem como a vida dos membros da família humana, guiando-os em segurança pelo caminho de retorno à Casa do Pai-Mãe. Quando alcançamos a sintonia como nosso divino genitor, fruto do nascimento de Cristo em nós, sabemos por experiência própria que ‘eu e o Pai-Mãe somos um.’ Uma vez conscientes de nossa natureza divina, iremos naturalmente caminhar com realeza com todos os outros seres, fazendo o bem sem olhar a quem, servindo de apoio e indicando o rumo a todos nossos companheiros de jornada neste mundo que ainda não despertaram para a realidade.
A unidade do Reino sempre existiu no plano espiritual. Somente no plano material vivemos na ilusão da separatividade, até que nossa visão espiritual seja desperta com o nascimento de Cristo em nós. A unificação do desejo dos homens com o desejo de Deus é o momento portentoso da libertação deste mundo; essa unificação é uma realidade permanente nos mundos de luz, ou seja, nos planos espirituais, mas deve ocorrer também no mundo das formas, para que possamos nos adentrar no Reino.
Ninguém é mais amoroso e mais sábio do que nosso Pai-Mãe celestial, portanto pedimos que nos seja concedido aquilo que Ele-Ela sabe que realmente precisamos, tanto em alimento material como em alimento para a alma, a compreensão da Verdade. O conhecimento da verdade é a dádiva celestial que nos possibilita desfazer os laços dos erros que nos prendem a este mundo. A raiz de todos os erros é a ignorância de nossa natureza divina e da operação das leis de Deus: o conhecimento da verdade desfaz os laços da ignorância. Mas para que isso ocorra, devemos, de nossa parte, relevar o comportamento de nossos irmãos que ainda cometem erros por ignorância. Ao perdoarmos de coração a todos os que nos ofenderam ou prejudicaram estaremos desfazendo os elos cármicos que nos prendem aos nossos inimigos, ou aos nossos devedores.
Quantas vezes nos deixamos iludir pelas aparências ao darmos atenção excessiva em nossa vida diária à natureza superficial das coisas. Ó Pai-Mãe celestial, conceda-nos a visão da realidade das coisas para que possamos nos libertar das ilusões que nos aprisionam.
Ó Pai-Mãe celestial, conceda-nos a Graça de vivermos permanentemente na Tua divina lembrança, jamais nos esquecendo que Tu és a Fonte de tudo o que existe. As leis que governam os mundos materiais e espirituais são expressões de Tua vontade. Ó Alento da Vida, Tu és o poder e a força viva de todo movimento, desde os mundos cósmicos aos mundos atômicos, passando por todas expressões da natureza em nossa Terra. Tu és também, ó Divino Músico, o compositor da música das esferas que a tudo embeleza com harmonia melodiosa, e que ao ritmo de Teus acordes renovas de idade em idade todas as coisas em Teu universo sem fim. Que assim seja para todo o sempre.
O que está sendo invocado é a Fonte da Manifestação, que é também o Alento da Vida. Ainda que seja referido como o Pai-Mãe do Cosmo, as duas polaridades de todos agentes criadores, nossos geradores celestiais não são referidos como os criadores do cosmo, mas sim como a Fonte da Manifestação. O mundo em que vivemos, nos movemos e temos nosso ser não é uma ‘criação’ divina, no sentido de estar separado de seu criador, mas sim é uma manifestação, portanto, uma extensão ou um reflexo de sua fonte divina original. Tudo o que existe é uma extensão ou expressão de Deus; o Pai-Mãe celestial é imanente em todos os seres, é o sopro da vida que permanece em todos nós.
A natureza imanente do divino genitor é geralmente referida como um cerne de luz em todos os seres, ainda que na grande maioria essa luz permaneça latente. O devoto invoca ao Pai/Mãe celestial para que faça brilhar a luz divina em seu interior. O brilho da luz interior, geralmente conhecido como iluminação, ocorre quando o Cristo interior muito apropriadamente vem à luz. Somente quando a luz de Cristo está atuando conscientemente em nós, é que nos tornamos verdadeiramente útil ao mundo, promovendo a paz, iluminando e amando incondicionalmente a todos os seres.
O sentimento que emana do Pai-Mãe celestial é o amor, a energia divina que harmoniza toda natureza bem como a vida dos membros da família humana, guiando-os em segurança pelo caminho de retorno à Casa do Pai-Mãe. Quando alcançamos a sintonia como nosso divino genitor, fruto do nascimento de Cristo em nós, sabemos por experiência própria que ‘eu e o Pai-Mãe somos um.’ Uma vez conscientes de nossa natureza divina, iremos naturalmente caminhar com realeza com todos os outros seres, fazendo o bem sem olhar a quem, servindo de apoio e indicando o rumo a todos nossos companheiros de jornada neste mundo que ainda não despertaram para a realidade.
A unidade do Reino sempre existiu no plano espiritual. Somente no plano material vivemos na ilusão da separatividade, até que nossa visão espiritual seja desperta com o nascimento de Cristo em nós. A unificação do desejo dos homens com o desejo de Deus é o momento portentoso da libertação deste mundo; essa unificação é uma realidade permanente nos mundos de luz, ou seja, nos planos espirituais, mas deve ocorrer também no mundo das formas, para que possamos nos adentrar no Reino.
Ninguém é mais amoroso e mais sábio do que nosso Pai-Mãe celestial, portanto pedimos que nos seja concedido aquilo que Ele-Ela sabe que realmente precisamos, tanto em alimento material como em alimento para a alma, a compreensão da Verdade. O conhecimento da verdade é a dádiva celestial que nos possibilita desfazer os laços dos erros que nos prendem a este mundo. A raiz de todos os erros é a ignorância de nossa natureza divina e da operação das leis de Deus: o conhecimento da verdade desfaz os laços da ignorância. Mas para que isso ocorra, devemos, de nossa parte, relevar o comportamento de nossos irmãos que ainda cometem erros por ignorância. Ao perdoarmos de coração a todos os que nos ofenderam ou prejudicaram estaremos desfazendo os elos cármicos que nos prendem aos nossos inimigos, ou aos nossos devedores.
Quantas vezes nos deixamos iludir pelas aparências ao darmos atenção excessiva em nossa vida diária à natureza superficial das coisas. Ó Pai-Mãe celestial, conceda-nos a visão da realidade das coisas para que possamos nos libertar das ilusões que nos aprisionam.
Ó Pai-Mãe celestial, conceda-nos a Graça de vivermos permanentemente na Tua divina lembrança, jamais nos esquecendo que Tu és a Fonte de tudo o que existe. As leis que governam os mundos materiais e espirituais são expressões de Tua vontade. Ó Alento da Vida, Tu és o poder e a força viva de todo movimento, desde os mundos cósmicos aos mundos atômicos, passando por todas expressões da natureza em nossa Terra. Tu és também, ó Divino Músico, o compositor da música das esferas que a tudo embeleza com harmonia melodiosa, e que ao ritmo de Teus acordes renovas de idade em idade todas as coisas em Teu universo sem fim. Que assim seja para todo o sempre.
Autor: Raul Branco
5 de novembro de 2017
veste-me
banha-me, veste-me
unge os meus cabelos
com o perfume do amor
vestida de ti
investida em mim
partilho a luz
e glória da criação
pequeno pedaço de amor
igual ao todo
unge os meus cabelos
com o perfume do amor
vestida de ti
investida em mim
partilho a luz
e glória da criação
pequeno pedaço de amor
igual ao todo
31 de outubro de 2017
Conheço o sal
Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousada em suor nocturno.
Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.
Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.
Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.
Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal dos teus mamilos,
e o da cintura se encurvando em ancas.
A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousada em suor nocturno.
Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.
Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.
Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.
Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal dos teus mamilos,
e o da cintura se encurvando em ancas.
A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.
Jorge de Sena
30 de julho de 2017
4 elementos IV
Sou o ar, uma partícula.
Ao meu redor vejo e sinto as partículas minhas irmãs, as filhas do ar. Vogando, flutuante, vertiginosas, enfurecidas, ventosas... um furação ou uma brisa leve.
Juntas somos o ar.
Adenso-me e mergulho num mar profundo e negro. Vou até ao fundo onde nada mais há. Só água em muitas gotas, as minha irmãs de água.
Fundo-me e recebo outras gotas em mim transformo-me e ascendo, renovada.
E em água e vento alimento o espaço e tudo em redor. As árvores....
Chego nas árvores com as minhas irmãs e somos seiva, somos árvore. Somos este desígnio de ser vida. Sou árvore. Sou vida transmitida a quem se alimenta de nós.
E sou quem se alimenta. Um gamo. Somos sangue e músculo a correr nas montanhas. A gota de saliva que cai no chão.
Sou terra agora, somos terra. Pareço morta, mas sou vida fervilhante. Somos partículas lentas e densas, algumas pesadas.. Todas diferentes, juntas neste desígnio de ser alimento mineral. Densas e comprimididas as irmãs somos rocha, metal. Somos a matéria que incandesce pelo simples prazer da compressão imensa.
Em lava, rios de alegria melosa, cantamos canções de esmagamento e fundimo-nos. Transformamo-nos em outro elemento e mudamos a natureza de ser.
Libertamos partes de nós em explosões de luz e calor. Energia radiante onde as minhas irmãs e eu seguimos sendo metamorfose, experiência e continuidade.
As minhas irmãs e eu, somos um e tudo o que existe.
Juntas somos o ar.
Adenso-me e mergulho num mar profundo e negro. Vou até ao fundo onde nada mais há. Só água em muitas gotas, as minha irmãs de água.
Fundo-me e recebo outras gotas em mim transformo-me e ascendo, renovada.
E em água e vento alimento o espaço e tudo em redor. As árvores....
Chego nas árvores com as minhas irmãs e somos seiva, somos árvore. Somos este desígnio de ser vida. Sou árvore. Sou vida transmitida a quem se alimenta de nós.
E sou quem se alimenta. Um gamo. Somos sangue e músculo a correr nas montanhas. A gota de saliva que cai no chão.
Sou terra agora, somos terra. Pareço morta, mas sou vida fervilhante. Somos partículas lentas e densas, algumas pesadas.. Todas diferentes, juntas neste desígnio de ser alimento mineral. Densas e comprimididas as irmãs somos rocha, metal. Somos a matéria que incandesce pelo simples prazer da compressão imensa.
Em lava, rios de alegria melosa, cantamos canções de esmagamento e fundimo-nos. Transformamo-nos em outro elemento e mudamos a natureza de ser.
Libertamos partes de nós em explosões de luz e calor. Energia radiante onde as minhas irmãs e eu seguimos sendo metamorfose, experiência e continuidade.
As minhas irmãs e eu, somos um e tudo o que existe.
28 de julho de 2017
fazedor de luas
Como te chamas, fazedor de luas?
Como as teces tão levemente?
Quem és tu, fazedor de luas?
Tanto cuidado no teu ombro largo.
Delicado como o luar,
Alumias o meu céu
14 de julho de 2017
27 de junho de 2017
rilke
"Não é somente a inércia a culpada pela repetição dos relacionamentos humanos, caso a caso, indescritivelmente, de forma monótona e sem renovação. É a timidez diante de novas e imprevisíveis experiências, para as quais acreditamos não estar preparados. Portanto, somente alguém que está preparado para tudo, que não exclui nada, nem o mais enigmático, vivenciará a relação com o outro como algo vivo."
"Talvez, todos os dragões nas nossas vidas sejam princesas que estão apenas à espera de nos ver agir, apenas uma vez, com beleza e coragem. Talvez, tudo aquilo que nos assusta seja, na sua essência mais profunda, algo desamparado que quer o nosso amor."
Rilke
"Talvez, todos os dragões nas nossas vidas sejam princesas que estão apenas à espera de nos ver agir, apenas uma vez, com beleza e coragem. Talvez, tudo aquilo que nos assusta seja, na sua essência mais profunda, algo desamparado que quer o nosso amor."
Rilke
It doesn’t interest me what you do for a living.
I want to know what you ache for – and if you dare to dream of meeting your heart’s longing.
It doesn’t interest me how old you are.
I want to know if you will risk looking like a fool – for love – for your dreams – for the adventure of being alive.
Oriah Mountain Dreamer
Oriah Mountain Dreamer
31 de maio de 2017
18 de maio de 2017
montanha
há tempo que aqui não estava
sem saudade
volto para a caverna
no alto da montanha
é demasiado lá embaixo
tudo puxa por mim
até ao ponto da loucura
sinto demais
tudo é extremo
exausta e sem recursos
volto
mas a aqui a dor é ainda maior
sem saudade
volto para a caverna
no alto da montanha
é demasiado lá embaixo
tudo puxa por mim
até ao ponto da loucura
sinto demais
tudo é extremo
exausta e sem recursos
volto
mas a aqui a dor é ainda maior
17 de maio de 2017
nascem universos
coisas explodem em mim
serão a morte de super novas
ou novos universos que nascem?
desintegrada
explodida no vazio
preciso ser contida
num abraço continuo e presente
até ser vida de novo
serão a morte de super novas
ou novos universos que nascem?
desintegrada
explodida no vazio
preciso ser contida
num abraço continuo e presente
até ser vida de novo
16 de maio de 2017
eu te céu
Pode-se inventar verbos? Quero inventar um: Eu te céu, assim minhas asas se tornam enormes para te amar sem medidas.
supostamente de Frida Khalo
15 de maio de 2017
ya pihi irakema
Eu fui contaminado pelo teu ser - uma parte de ti vive e cresce em mim.
Tradução de: "ya pihi irakema" - "Eu te amo", índios Yanomami na Amazonia.
Tradução de: "ya pihi irakema" - "Eu te amo", índios Yanomami na Amazonia.
14 de maio de 2017
metade de mim
Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.
Quer as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo
Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão
Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço
Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é plateia
a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também
Oswaldo Montenegro
13 de maio de 2017
árvore sem floresta
que ramos agrestes
tem esta árvore
que corta quem chega perto
que segredos ou força
tem que impede
criar uma floresta
um veneno frio
espalha-se no ar
invisível
mata a árvore
aos poucos
in "árvores de mim"
12 de maio de 2017
11 de maio de 2017
voltam as águas
voltam as águas
uma maré cheia, larga
imóvel sobre as areias da praia
que faço agora?
imóvel a maré, a areia e eu
olhando tudo e afogando-me
de novo?
a perda. outra vez.
uma maré cheia, larga
imóvel sobre as areias da praia
que faço agora?
imóvel a maré, a areia e eu
olhando tudo e afogando-me
de novo?
a perda. outra vez.
31 de março de 2017
27 de março de 2017
roubado
não me roubes
tudo o que tirares
não é verdadeiro
deixa o tempo
fazer crescer
a vontade de dar
17 de março de 2017
os teus lugares
moras em mim,
nos lugares que são apenas teus
sussurradas, fortes e macias
nos ouvidos, as marcas
de dedos, em valsas lentas
no peito, a corrente
liga-me ao mar onde estás ancorado
12 de março de 2017
sem tempo
vou saber-te de cor
de olhos fechados
sigo as linhas dos dias
passados a vaguear sem tempo
de olhos fechados
sigo as linhas dos dias
passados a vaguear sem tempo
23 de fevereiro de 2017
3 de fevereiro de 2017
fico
de longe o meu olhar cruza o teu.
cresce em mim o rumor silencioso
de explosões em arcos de lava.
o olhar mantido, confiado.
deslumbrada, avanço
passo a passo, lento.
vou ao teu encontro
como quem segue o seu destino
e fico.
cresce em mim o rumor silencioso
de explosões em arcos de lava.
o olhar mantido, confiado.
deslumbrada, avanço
passo a passo, lento.
vou ao teu encontro
como quem segue o seu destino
e fico.
18 de janeiro de 2017
perto de ser
Pouco falta agora
uns ramos espalhados
umas pedras soltas
Aproximo-me do fim
A figura de metal negro
que vive dentro de mim
dissolve-se em águas quentes
que criam novas formas de cristal
e logo se derretem
Estou perto de ser eu
uns ramos espalhados
umas pedras soltas
Aproximo-me do fim
A figura de metal negro
que vive dentro de mim
dissolve-se em águas quentes
que criam novas formas de cristal
e logo se derretem
Estou perto de ser eu
2 de janeiro de 2017
dentro da pele
Por fim, estás dentro de mim
guardado debaixo da pele
como o lugar certo para ficar
Ocupas o teu espaço
doce e intenso como o sabia
A maravilhosa admiração de te ter
tanta espera consumada
guardado debaixo da pele
como o lugar certo para ficar
Ocupas o teu espaço
doce e intenso como o sabia
A maravilhosa admiração de te ter
tanta espera consumada
27 de dezembro de 2016
envoltos
Sinto-te
dentro de mim e à minha volta
estou
dentro de ti e envolvendo-te
num banho primordial e amniótico
como caracóis enrolados
fecundando-se mutuamente
yin e yang em nascimento e consumação
cada um renascendo em si e no outro
reconstruindo as partes em falta
num jogo de peças em encaixe perfeito
dentro de mim e à minha volta
estou
dentro de ti e envolvendo-te
num banho primordial e amniótico
como caracóis enrolados
fecundando-se mutuamente
yin e yang em nascimento e consumação
cada um renascendo em si e no outro
reconstruindo as partes em falta
num jogo de peças em encaixe perfeito
21 de dezembro de 2016
olhos
como se fossem luas sobre luas
e os oceanos do tempo parados
olho nos teus olhos, afinal tão iguais,
e mergulho
e os oceanos do tempo parados
olho nos teus olhos, afinal tão iguais,
e mergulho
16 de dezembro de 2016
antes do tempo
Mergulho na profunda luz
dos teus olhos de sol do meio dia
Por eles me afundo até ao teu centro
A imensidão escura e estrelada
onde sou de novo antes do tempo
Por ti e em ti renasço
Contigo me reparo e construo
dos teus olhos de sol do meio dia
Por eles me afundo até ao teu centro
A imensidão escura e estrelada
onde sou de novo antes do tempo
Por ti e em ti renasço
Contigo me reparo e construo
15 de dezembro de 2016
voltar a casa
Os pequenos milagres dos teu olhos
a fronte limpa
as cores das areias e do mar alto
e os lábios macios
aquela pequena depressão onde me entrego
à luz do sorriso
É como chegar a casa
depois de andar perdida
a fronte limpa
as cores das areias e do mar alto
e os lábios macios
aquela pequena depressão onde me entrego
à luz do sorriso
É como chegar a casa
depois de andar perdida
9 de dezembro de 2016
limos
Libertos dos limos e das redes
o meu eu e o teu eu
encontram-se
Corações síncronos
em harmonia a par
afinal tão iguais
Que paz
o meu eu e o teu eu
encontram-se
Corações síncronos
em harmonia a par
afinal tão iguais
Que paz
5 de dezembro de 2016
flanco
Pousa a mão no meu flanco
Com a lentidão dos minutos
e dedos leves
Percorre o espaço entre as rochas
e o meu pescoço
Explodem rugidos na nuca
num vislumbre fulvo e verde
Com a lentidão dos minutos
e dedos leves
Percorre o espaço entre as rochas
e o meu pescoço
Explodem rugidos na nuca
num vislumbre fulvo e verde
1 de dezembro de 2016
27 de novembro de 2016
cavernas geladas
Altas cavernas geladas
atrás dos meus olhos
atrás dos meus olhos
Fria toda essa água presa a mim
Mágoas antigas
teimam em ficar
Trago calor e derretem
em avalanches de lama e soluços
restos de vida
Por fim lavada e limpa
preparo verdes prados suspensos
Mágoas antigas
teimam em ficar
Trago calor e derretem
em avalanches de lama e soluços
restos de vida
Por fim lavada e limpa
preparo verdes prados suspensos
26 de novembro de 2016
abraço
No espaço ínfimo
que sobra do abraço
entre ti e mim
Escorrego e caio
num abismo largo e sem fim
O abraço onde te perco
que sobra do abraço
entre ti e mim
Escorrego e caio
num abismo largo e sem fim
O abraço onde te perco
24 de novembro de 2016
noite e dia
"Olha para a noite como se o dia nela devesse morrer e para a manhã como se todas as coisas delas nascessem"
André Guide
André Guide
23 de novembro de 2016
22 de novembro de 2016
tempo
deixa-me amar-te
dá-me o tempo
lento, para cresceres
dentro de mim
ocupares o lugar
onde moras, e que ainda não sei.
dá-me o tempo
lento, para cresceres
dentro de mim
ocupares o lugar
onde moras, e que ainda não sei.
21 de novembro de 2016
espaços vazios
quero-te um.
inteiro e completo.
igual a mim.
inteira.
profundamente
unidos nos espaços vazios,
onde apenas cabe o outro.
inteiro e completo.
igual a mim.
inteira.
profundamente
unidos nos espaços vazios,
onde apenas cabe o outro.
15 de outubro de 2016
olhos de sol
chegas de madrugada
olhos claros, no fulgor
do sol do meio dia
entrego as minhas manhãs
todas a ti, em planicies macias
que apenas se adivinham
pelas tardes,
nos teus olhos de sol do meio dia
me perco e me deixo tomar
inundas todos os lugares
da minha pele
com cheiro de mar e beijos
olhos claros, no fulgor
do sol do meio dia
entrego as minhas manhãs
todas a ti, em planicies macias
que apenas se adivinham
pelas tardes,
nos teus olhos de sol do meio dia
me perco e me deixo tomar
inundas todos os lugares
da minha pele
com cheiro de mar e beijos
29 de setembro de 2016
dormem
dormem juntos
finalmente
a menina e o ouriço
enrolados numa bola
no casulo cor de laranja
quentes no corpo e na alma
um só coração
finalmente
a menina e o ouriço
enrolados numa bola
no casulo cor de laranja
quentes no corpo e na alma
um só coração
28 de setembro de 2016
a menina
a menina,
encolhida no escuro
sombria na alma e no corpo,
mantinha-se alerta
rasgada de raiva
e esgotada de tristeza,
a menina,
naquele canto,
sofria de amor
25 de setembro de 2016
fogo líquido
arcos de fogo líquido
entrelaçados entre mim e ti
labaredas em fusão silenciosa
respirar
in "em terra"
entrelaçados entre mim e ti
labaredas em fusão silenciosa
respirar
in "em terra"
23 de setembro de 2016
alma
olho para os teus olhos
de olhos fechados
e vejo dentro da alma
a cor da tua.
é rosa-encarnado-laranja
da cor da minha.
de olhos fechados
e vejo dentro da alma
a cor da tua.
é rosa-encarnado-laranja
da cor da minha.
22 de setembro de 2016
16 de setembro de 2016
na lua do meu corpo
encontra-me na lua do teu corpo
na sede de te encontrar
em momentos infindos
na lua do meu
na sede de te encontrar
em momentos infindos
na lua do meu
8 de setembro de 2016
fecha os olhos
fecha os olhos
sente
o respirar da pele
em nuvens de calor
e ondas perfumadas
fecha os olhos
e olha-me com os dedos
1 de setembro de 2016
cuida-me
chega de mansinho
e cuida-me
toca-me com o olhar
dedos leves
pele morna
cuida-me
e faço-te voar
e cuida-me
toca-me com o olhar
dedos leves
pele morna
cuida-me
e faço-te voar
31 de agosto de 2016
canas
uma mesa pequena, duas cadeiras. o lugar perfeito.
janela aberta para a brisa fresca de este, num dia quente de verão.
um café longo, um bolo delicado. a companhia das letras.
em frente, fora da janela, uma muralha de canas
fecha o horizonte numa mancha de verde.
aqui podia ser qualquer lugar do mundo.
in "momentos perfeitos"
janela aberta para a brisa fresca de este, num dia quente de verão.
um café longo, um bolo delicado. a companhia das letras.
em frente, fora da janela, uma muralha de canas
fecha o horizonte numa mancha de verde.
aqui podia ser qualquer lugar do mundo.
in "momentos perfeitos"
27 de julho de 2016
livro cor de rosa
Tarde quente a lembrar outras tardes, em harmonia de cores internas.
A brisa morna leva as cortinas caramelo. O sofá, acolhedor e reconfortante como chocolate negro. O livro, tão cor de rosa como a sua capa enfeitada de bolachas, leva-me ao país encantado onde todos têm um final feliz, apesar dos precalços e dureza do caminho. É possível a leveza, é possível sonhar e atingir o extraordinário. Com a ajuda de gelado de nozes e limão.
A brisa morna leva as cortinas caramelo. O sofá, acolhedor e reconfortante como chocolate negro. O livro, tão cor de rosa como a sua capa enfeitada de bolachas, leva-me ao país encantado onde todos têm um final feliz, apesar dos precalços e dureza do caminho. É possível a leveza, é possível sonhar e atingir o extraordinário. Com a ajuda de gelado de nozes e limão.
in "momentos perfeitos"
22 de julho de 2016
baleia
Sou o ar e a vertigem imóvel
de ser.
Flutuo na imensidão que me contém
e sou contida
Dentro levo galáxias e tudo o que existe.
Sou. Apenas sou.
20 de julho de 2016
aqui
Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.
Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não por aquilo que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.
Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não por aquilo que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.
Sophia de Mello Breyner Andresen
19 de julho de 2016
solidão
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do meu próprio coração.
Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
o mistério das palavras maduras
ou a brancura de um amor que nos prendia.
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até ouvir
o meu sangue jorrar na voz das fontes.
Eugénio de Andrade
O seu corpo perfeito, linha a linha
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do meu próprio coração.
Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
o mistério das palavras maduras
ou a brancura de um amor que nos prendia.
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até ouvir
o meu sangue jorrar na voz das fontes.
Eugénio de Andrade
15 de julho de 2016
caminho
O caminho vai longo.
E hoje cansado. Gasto.
Uma corrente ininterrupta de cair e levantar.
Colar as partes quebradas.
Amarrar os fios invisíveis da fé.
Convocar a coragem de voltar a ser.
Juntar os restos da força até ser uma vontade.
Pedaços espalhados de mim.
Sou, serei, inteira de novo.
in "caminhos das pedras"
E hoje cansado. Gasto.
Uma corrente ininterrupta de cair e levantar.
Colar as partes quebradas.
Amarrar os fios invisíveis da fé.
Convocar a coragem de voltar a ser.
Juntar os restos da força até ser uma vontade.
Pedaços espalhados de mim.
Sou, serei, inteira de novo.
in "caminhos das pedras"
14 de julho de 2016
basta
rasga-me a voz a garganta
o som sufocado,
preso no corpo, exausto
de tanto silêncio, gritar
num sussurro
basta
o som sufocado,
preso no corpo, exausto
de tanto silêncio, gritar
num sussurro
basta
3 de julho de 2016
sem fé
não existes
uma nuvem fugidia
todos os esforços de te alcançar
terminam em dor
exausta, sem fé
tanta vontade gasta
em encontrar nada
perdida de novo
uma nuvem fugidia
todos os esforços de te alcançar
terminam em dor
exausta, sem fé
tanta vontade gasta
em encontrar nada
perdida de novo
2 de julho de 2016
tortura
a tortura imparável
da solidão
rói os ossos e a pele
a carne derrama-se
em águas sem fim
in "o tigre e outras marés"
30 de junho de 2016
ar
inspiro e o ar não entra
expiro e o ar não sai
que faço agora?
já não tenho mais corpo
cortado de novo
sem respirar
expiro e o ar não sai
que faço agora?
já não tenho mais corpo
cortado de novo
sem respirar
8 de junho de 2016
29 de abril de 2016
ondas
um mundo de água por dentro
uma fina capa apenas mantém a forma
onde crescem peixes do ar e unicórnios de flores
balança numa ginga ritmada
ao som das voltas em torno do sol
balança a água
ondas sobem e baixam
balançam os peixes e os unicórnios
as flores, as ondas sobem e baixam
sobe uma onda, quebra a fina capa
a água espalha-se pelo vazio
espaço ocupado agora
no "mundo d'água"
uma fina capa apenas mantém a forma
onde crescem peixes do ar e unicórnios de flores
balança numa ginga ritmada
ao som das voltas em torno do sol
balança a água
ondas sobem e baixam
balançam os peixes e os unicórnios
as flores, as ondas sobem e baixam
sobe uma onda, quebra a fina capa
a água espalha-se pelo vazio
espaço ocupado agora
no "mundo d'água"
14 de abril de 2016
gota a gota
gotas rosa e laranja
caem sobre a minha pele
devagar dissolvem a fina capa
e espalham-se por todos os recantos
em ondas de amor e cheiro de canela
no "mundo d'água"
caem sobre a minha pele
devagar dissolvem a fina capa
e espalham-se por todos os recantos
em ondas de amor e cheiro de canela
no "mundo d'água"
13 de abril de 2016
31 de março de 2016
30 de março de 2016
28 de março de 2016
mãos
pelas tuas mãos passa a minha pele
e por elas,
não sei o que fazer das minhas
in "terra em mim"
e por elas,
não sei o que fazer das minhas
in "terra em mim"
23 de março de 2016
22 de março de 2016
toque
tempo suspenso
um toque que mal toca
na intensidade e
respiração profunda
transmutação da pele
in "terra em mim"
um toque que mal toca
na intensidade e
respiração profunda
transmutação da pele
in "terra em mim"
8 de março de 2016
rotina
Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Eugénio de Andrade
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Eugénio de Andrade
1 de março de 2016
Lembra-me um sonho lindo
Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada
Canta, rouxinol, canta, não me dês penas
Cresce, girassol, cresce entre açucenas
Afaga-me o corpo todo, se te pertenço
Rasga-me o ventre ardendo em fumo de incenso
Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada
Ai! Como eu te quero! Ai! De madrugada!
Ai! Alma da terra! Ai! Linda, assim deitada!
Ai! Como eu te amo! Ai! Tão sossegada!
Ai! Beijo-te o corpo! Ai! Seara tão desejada!
Fausto Bordalo Dias, letra "Lembra-me um sonho lindo" in "Por este Rio Acima"
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada
Canta, rouxinol, canta, não me dês penas
Cresce, girassol, cresce entre açucenas
Afaga-me o corpo todo, se te pertenço
Rasga-me o ventre ardendo em fumo de incenso
Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada
Ai! Como eu te quero! Ai! De madrugada!
Ai! Alma da terra! Ai! Linda, assim deitada!
Ai! Como eu te amo! Ai! Tão sossegada!
Ai! Beijo-te o corpo! Ai! Seara tão desejada!
Fausto Bordalo Dias, letra "Lembra-me um sonho lindo" in "Por este Rio Acima"
18 de fevereiro de 2016
o que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
15 de fevereiro de 2016
nada
nada
vazio
absolutamente nada
até o vazio entre galáxias está pleno de ligações
in "caminho das pedras"
13 de fevereiro de 2016
verde esmeralda
Vento vagabundo
Rumores de folhas e águas correntes,
aroma de chuva e terra
Raízes profundas
entrelaçadas em mim
atentas, pulsantes.
Verde esmeralda,
húmido, suave e quente
Que me leva.
in "caminhos do vento"
10 de fevereiro de 2016
vem sentar-te comigo
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| d'aprés kenglye |
vem sentar-te
comigo, querido
à beira rio
sentir
a água passar debaixo
dos pés
o calor do sol nos
tornozelos
vem sentar-te
comigo, querido
a ver os peixes
preguiçarem.
sons de sapos e
ovelhas
o dia que não
termina e, contudo, se move.
in “caminhos do vento”
9 de fevereiro de 2016
sossego
o sossego não me larga
esta paz nos pés
larga na cintura
balouçar na rede da tarde
a brisa morna no cabelo
leves ondulações na pele
quieta, deixo o tempo
que não passa, nem fica
esta paz nos pés
larga na cintura
balouçar na rede da tarde
a brisa morna no cabelo
leves ondulações na pele
quieta, deixo o tempo
que não passa, nem fica
mão em mão
in “caminhos do vento”
in “caminhos do vento”
8 de fevereiro de 2016
lua nova
Quando a lua nova chega
Posso enfim descansar
Largar as agruras das outras luas
Deitar-me no prado dos teus olhos
E dormir no ninho de penas suaves
Que construíste para mim
in "caminhos do vento"
5 de fevereiro de 2016
perigo
o que és?
esta paz nas ancas,
no ar do peito.
o que me fazes?
sei do perigo e não
o sinto,
só quietude.
in “caminhos do vento”
esta paz nas ancas,
no ar do peito.
o que me fazes?
sei do perigo e não
o sinto,
só quietude.
in “caminhos do vento”
14 de novembro de 2015
sombra na luz
a sombra manchada de luz
a luz enfeitada de sombra
a perfeição do imperfeito
a beleza do sombrio
in "árvores de mim"
a luz enfeitada de sombra
a perfeição do imperfeito
a beleza do sombrio
in "árvores de mim"
8 de novembro de 2015
fogueira de mim
Vem sentar-te à sombra da minha fogueira.
Sentir o fresco da noite das costas
e o calor de mim por todo o corpo
in "árvores de mim"
Sentir o fresco da noite das costas
e o calor de mim por todo o corpo
in "árvores de mim"
6 de novembro de 2015
flores dos cactos
A floresta rumoreja
em espasmos crescentes
Cresce e floresce
perante os meus olhos
como as flores dos cactos
Numa noite
nasce e morre, feliz.
em espasmos crescentes
Cresce e floresce
perante os meus olhos
como as flores dos cactos
Numa noite
nasce e morre, feliz.
in "árvores de mim"
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