14 de novembro de 2015

sombra na luz

a sombra manchada de luz
a luz enfeitada de sombra
a perfeição do imperfeito
a beleza do sombrio

in "árvores de mim"

8 de novembro de 2015

fogueira de mim

Vem sentar-te à sombra da minha fogueira.
Sentir o fresco da noite das costas
e o calor de mim por todo o corpo

in "árvores de mim"

6 de novembro de 2015

flores dos cactos

A floresta rumoreja
em espasmos crescentes
Cresce e floresce
perante os meus olhos
como as flores dos cactos
Numa noite
nasce e morre, feliz.

in "árvores de mim"

10 de outubro de 2015

aspiração

Rios soltam risos e gorjeios
Correm velozes nas veias
da floresta
As árvores solenes
entretêm-se com a agitação
e aspiram a também ser rio

in "árvores de mim"

4 de outubro de 2015

histórias

As árvores sussurram
fantasias
Histórias inventadas
de princesas há muito mortas
Quem dera ser uma história
contada por mim
em alegres madrigais

in "árvores de mim"

14 de setembro de 2015

dois

e se eu for outro?
serás tu?
estarás comigo
sendo mudado?
esta fluidez de ser
ou deixar de ser
a dança de equilíbrio
e transformação
de dois

in "caminhos do vento"

1 de setembro de 2015

terra

Serei terra a ser arada
Alimento para prados
árvores e melros
Sentir a abundância
rica de abelhas e caracóis
a crescer de mim e em mim
Quero ser este meio
fecundo exuberante
Um borbulhar de vida
Ininterrupta constante
prazerosa

in “árvores de mim”

14 de agosto de 2015

ser árvore

Árvore poderosa de mim
ligada ao fundo da terra
e a toda a floresta
por raízes fortes e intensas
Em ti, corre o alimento rico
trazido das profundezas
e criado do sol
Alquimia fluida
Rios de seiva percorrem
todo este corpo
ininterruptamente
Abraçam o vento, o sol
as tempestades geladas
Fluindo sempre
Sendo sempre árvore
Essa decisão não decidida
Simplesmente aceite

in “árvores de mim”

17 de julho de 2015

lago

Lagos serenos reflectem a lua
Uma brisa leve eriça as costas da água
em pequenos risos
Esta paz de estar aqui, neste lago
Eu e a lua, o silêncio cheio de som

in “árvores de mim”

16 de julho de 2015

metal

O denso metal
Incandesce
E transforma-se
Derretido se espraia
Nos espaços vazios
Quente e meloso
Em risos se fica

in “árvores de mim”

12 de julho de 2015

quietude

A quietude da serenidade
sem esplendores de fogo
A tranquilidade das árvores
ligadas ao chão e ao céu
Riachos de seiva
percorrem estes corpos
inexoravelmente crescentes
com aparente lentidão
O propósito de ser
determinado e aceite

in “árvores de mim”

19 de junho de 2015

casulo

quando me rasgarei por fim?
libertar-me deste casulo que me sufoca
quando deixarei de aguardar o mudar dos tempos
e dos terrores secretos.
nascer de novo transformada
esta impaciência por fim calma

in “memórias das pedras”

16 de junho de 2015

passado

o tempo passa inexorável
as marcas ficam em mim
cicatrizes que não aceito
o passado que não parece passar
de tão presente é

in “caminho das pedras”

14 de junho de 2015

caminho das pedras


Volto de novo
aos velhos caminhos
As pedras
Anseio pela areia macia e quente
um trilho verdejante
um prado
Não estas pedras,
aguçadas
Rasgam os pés e o ânimo

in "caminho das pedras"

13 de junho de 2015

sem rumo


ventos me trazem
ventos me levam
ao sabor destas correntes
estranhas
parece vida sem rumo
será que existe um fim
será que é esse o caminho
o que vejo à minha volta
rodopiando nestes ventos
contraditórios

in “memórias das pedras”

11 de junho de 2015

oceano


De tanto dizer
já nada sobra
Um vazio
que parece paz
instala-se
Não é pacífico
este oceano
Dormente
contido. Irá
transbordar de novo
Enraivecido

in “memórias das pedras”

8 de junho de 2015

longe

Onde vão estas águas atrás dos meus olhos
Como saem de mim
Lavadas
Onde vão estes ventos inquietos e frios
Para longe de mim
Desterrados

in “memórias das pedras”

28 de maio de 2015

ouriço

O meu pequeno ouriço
Eriçado, bola de picos
Partiu todos os espinhos
Agora, nu, dorme em paz
Num casulo laranja
Quente por fim

in "árvores de mim"

18 de maio de 2015

reserva

sem palavras me deixo ficar
apenas sinto 
a minha reserva
em relação ao mundo.
separada
qual o meu lugar?
quem me encontrará
neste local distante e ermo?

in "caminho das pedras"

14 de maio de 2015

caminho das pedras


Tantos caminhos de pedras percorri
e eis-me de volta à caverna.
Nómada neste país de imóveis castelos
que me negam a entrada.
Onde irei morar?
Qual é o vento que me vai levar
ao destino de ser casa?

in "caminho das pedras"

10 de maio de 2015

quebrados

Triste por ti
Por mim
Pela vida que te parece cortada
Pelo imenso esforço
a corrigir os défices
Esforço inglório
permanente
a lutar contra joelhos quebrados
e mais...
Esta perda da tua vida
Como te vai ser difícil
construir e lutar ao mesmo tempo
No final, talvez a tristeza seja só minha
E consigas tu
ser e seguir

in "caminhos das pedras"

6 de maio de 2015

amarras

Como seguir o meu vento
Se estou presa ao chão?
Cordas invisíveis, inexistentes,
Fortes como amarras
Seguram toda esta vontade
Como solto as velas?
Tenho de naufragar todos os barcos
Para poder voar.

in "caminho das pedras"

1 de maio de 2015

pele de água

Uma pele de água
pesada e interna
desmancha-se e cai
como um trapo velho
Ali fica a inundar os tornozelos
Uma enchente que não
para nem escorre
Continua a subir
até me afogar
em lodo e barcos vazios

in "caminho das pedras"

20 de abril de 2015

tingida de ti

a tua cor tintada em mim
tingida dentro da pele
sou tão estranha sem esta cor
marcada de ti
a verdade é que me faltas
e todas as desculpas justificadas
não me servem
sapatos velhos e gastos
toalhas molhadas no chão
uma voz dentro de mim diz
que me faltas
no ar

in "memórias do fogo"

15 de abril de 2015

vem


Meu vento, minha árvore
aqui te espero
Vem depressa,
arrebatar-me
do fogo deste dragão
Meu vento, minha árvore
brisa no coração
Leva-me a ver os mares distantes
Seres de encanto
Envolvida em nuvens
E chamas

in "caminhos do vento"

14 de abril de 2015

grito

Um grito tenta romper
esta lama espessa
e não sai da boca
Peixes a sufocar
ao lado da água

in "caminhos das pedras"

1 de março de 2015

explodir

Prefiro dor intensa, a explodir
Pelo menos sinto, vivo
Em vez desta dor surda constante
Que me rouba, sem piedade, o sentido

in "o tigre e outras marés"

21 de fevereiro de 2015

compreendo os dias de cinza



Compreendo finalmente os dias de cinza.
Compreendo com outro sentir,
de fora, como embaixadora
numa terra deserta.
A missão de explorar o mundo e compreender
os modos dos outros.
Lamento os dias da cinza.
Lamento o quebrar dos ramos e o fogo devastador,
a impossibilidade de criar uma floresta a partir da secura.
Nem uma pequena árvore sequer, despida, com 3 folhas.

in "o tigre e outras marés"

19 de fevereiro de 2015

avé maria


avé maria cheia de graça
o senhor está contigo
bendita és entre as mulheres
bendito é o filho do teu ventre
pois foste a escolhida

maria, mãe de todos
intercede por nós
errantes, sem senhor,
sem bençãos e sem filhos

com as tuas mãos cura
a dor do mundo
agora e para sempre
ámen

in "o tigre e  outras marés"

17 de fevereiro de 2015

rios de mim


SebastianWagner
Tenho tantos rios para dar
e nenhum deserto espera por mim
para florir.
Apenas vazio e rochas agrestes
que não querem a minha água.
Onde irei desembocar os meus rios?
As nascentes borbulham de impaciência
contidas até ao esmagamento
na espera, até agora inútil,
de um vale que me contenha.

in “o tigre e outras marés”

13 de fevereiro de 2015

águas



Esta tristeza de ti não sai de mim
Como largo esta perda?
Perda de mim, das fantásticas hipóteses do que poderia ter sido.
Perda de ti, apesar de nem te ter.
Água escorre por dentro do corpo
Sai pelos pés, de tão cansada.

in “o tigre e outras marés”

suave calmo

Suave suave és
Calmo calmo te sinto
E tudo o resto
É apenas minha invenção

in "memórias do fogo"

12 de fevereiro de 2015

riscas






a sombra manchada de luz
a luz enfeitada de sombra

in “o tigre e outras marés”

11 de fevereiro de 2015

o tigre ferido



o tigre está ferido
também ele
confunde esta dor com amor

o meu tigre ronrona
deitado nos lençóis verdes do prado

in “o tigre e outras marés”

10 de fevereiro de 2015

não me acompanha



o tigre voltou ao fundo da selva
escondido na caverna por mais mil anos
ou apenas umas horas
voltou às sombras

este meu tigre não me acompanha
fulvo, furtivo apenas me toma de assalto
estraçalha e abandona
no chão um resto destroçado de mim
sem vida em vida
em inegável e permanente dor

in “o tigre e outras marés”



9 de fevereiro de 2015

o tigre espreita



o tigre espreita
emboscado
riscas em sombra e luz

persegue-me por eras

sinto o seu bafo nos flancos
sem entender
de onde vem este mal

num súbito relâmpago
sombra e luz ataca
salta esmaga-me o ar
garras rasgam
ossos em farpa, esfacelada
coração latejando sangue
o alívio final não vem
ali fico em dor lancinante
até à eternidade

o meu tigre e eu presos
neste ritual infinito
a que estamos obrigados
por motivos desconhecidos

in “o tigre e outras marés”

8 de fevereiro de 2015

espadas

syrius


esta dor
espadas que cortam
abrem-me de  cima a baixo
expondo o que?
apenas dor?
será que o coração de dor
das igrejas é possível?
alma dorida
será que vai terminar um dia?
não conheço outros sinónimos para esta dor
nada se compara, não há mais palavras
apenas dor.

in “o tigre e outras marés”

24 de janeiro de 2015

sem sentir



Sem palavras me deixo ficar
Apenas sentir a minha reserva
Em relação ao mundo
Separada
Afinal qual é o perigo?

Prefiro a dor intensa a explodir
Pelo menos sinto, vivo
Em vez desta dor surda constante
Que me rouba, sem piedade, o sentido

in “o tigre e outras marés”

23 de janeiro de 2015

sei de certeza que te vou perder



Sei de certeza que te vou perder.
Tão certo,
como o movimento dos planetas não poder ser parado,
ficar sem ti é um facto.
Esta ideia volta e volta, em cada vez mais pequenas elipses,
à medida que se aproxima a hora.
Sei de certeza que te vou perder.
E a tristeza de perder quem nunca tive
é demais para o meu tamanho.
Preciso do caminho daqui para a lua e mais além
Como se perde o que nunca se teve?
Como o calor do sol, que também nunca me pertenceu,
Aqueces-me e estás no meu céu.
Sem ti, será noite de novo.
Sem estrelas e sem a dança dos astros,
a tristeza vai atingir-me,
com a força extraordinária das estrelas que explodem.
Os restos de mim, espero,
que sejam sementes para outro amor.

in “memórias do fogo”

22 de janeiro de 2015

impossibilidade



as impossibilidades enchem-me de vazio.
se tudo o que sinto for impossível,
o que resta?
não há mãos, nem grilos,
nem sequer sapos.

in “o tigre e outras marés”

20 de janeiro de 2015

tristeza


sangue
espesso quente viscoso
escorre em golfadas
do peito

lágrimas que os olhos não choram

in "o tigre e outras marés"


17 de janeiro de 2015

a tua cor



Da tua cor, a que mais amo
é esta, rosa-salmão, suave e intensa,
em laivos de carmim luminoso,
um fogo ardendo macio.
O calor desta cor, 
brilha escondido aos olhos do mundo,
até de ti.
É esta cor que me aquece e encanta.
Imagino as infinitas possibilidades,
e perco-me nesse mar de fantasia.

in “memórias do fogo”

16 de janeiro de 2015

a alegria de te ver

Irondoom


a alegria de te ver
como grilos escondidos
nas noites de verão
pequenos sobressaltos de som
que tem necessariamente de se manter
na sombra

in “memórias do fogo”

15 de janeiro de 2015

decisão



Gosto de sentir a decisão formar-se
Crescer em rumores internos
Gestos iniciados leves
Por fim avançar suavemente
Decidido

in “memórias do fogo”

14 de janeiro de 2015

simples gostar de ti


gosto das coisas simples de ti.
gostava de mais.
mais coisas simples,
para fazer crescer
o quanto gosto de ti.

in “memórias do fogo”

8 de janeiro de 2015

formadora de fogueiras

Irondoom


Como alimentar um pequeno fogo para que cresça
Assim estou eu contigo
Formadora de fogueiras
Atiçadora de incêndios
Deixada para trás
Por um vento novo
Que leva finalmente todo esse esplendor para longe

in “memórias do fogo”

6 de janeiro de 2015

corda



Apenas pedaços sobram
Um sorriso fugidio
Onde as possibilidades moram
Uma inocência macia
Alguma hesitação
Delicadeza
Pedaços de corda ténue
Que me mantém ligada a ti

in “memórias do fogo”


2 de janeiro de 2015

suspenso



Sublimar seria importantemente útil
Dançar até todo o tempo terminar
Ter essa alegria de voar
O momento suspenso eternamente

in “memórias do fogo”