7 de novembro de 2017

O Pai Nosso


Por dois milênios o Pai Nosso é a principal prece de todos os cristãos. Ainda que muitos a recitem de forma mecânica e apressada, um número crescente de devotos está se tornando cônscio de que esse tesouro, que nos foi legado diretamente pelo Senhor, é uma iguaria sem par que merece ser saboreada lenta e conscientemente.
Ao meditarmos sobre o significado mais profundo das frases e até mesmo de cada palavra da oração do Senhor, verificamos que elas realmente encobrem um profundo tesouro. Alguns estudiosos verificaram que o Pai Nosso, em sua versão original em aramaico, apresenta uma gama bem mais ampla de significados que não são percebidos nas traduções para as línguas modernas. Para atender o anseio daqueles que buscam conhecer os ensinamentos de Jesus em sua forma mais pura, procuramos resgatar a versão original como provavelmente foi ensinada pelo Mestre.
O aramaico era a língua em que Jesus ministrava seus ensinamentos. Como esses ensinamentos foram conservados pela tradição oral por várias décadas em aramaico, alguns estudiosos acreditam que eles foram primeiramente escritos naquela língua e só mais tarde traduzidos para o grego.
Com a tradução para o grego, e mais tarde para o latim e outras línguas européias, surgiram vários problemas na transmissão dos ensinamentos em virtude da estrutura destas línguas. O aramaico é uma língua antiga e bastante sintética; suas palavras podem ter diferentes significados como ocorre com suas línguas irmãs, hebraico e árabe. Ao contrário do grego, o aramaico não tem divisões rígidas entre meios e fins, ou entre qualidades internas e ação externa. Ambos estão sempre presentes.[1] O grego só foi introduzido no oriente médio bem mais tarde: os vários significados de cada palavra em aramaico eram expressos por duas ou mais palavras diferentes em grego. Poderíamos dizer que as palavras em aramaico são ricas em significado enquanto o grego é uma língua rica em palavras.
Quando os lingüistas comparam os textos bíblicos existentes em aramaico e em grego, verificam que o texto grego invariavelmente limita o significado mais profundo e abrangente da versão original em aramaico. Isso explica parte das dificuldades que os cristãos têm para entender os ensinamentos do Senhor. O significado mais amplo das palavras de Jesus foi limitado, e até mesmo distorcido em alguns casos, com as diferentes traduções e editorações ao longo dos séculos. Esse é um sério problema para o devoto, pois Jesus usava os diferentes significados de suas palavras para despertar na alma de seus ouvintes uma sintonia com a profunda verdade transformadora que ele procurava transmitir sob a aparência de coisas simples. Verificamos que muitas das confusões idiomáticas nas parábolas de Jesus na Bíblia em grego, tornam-se claras para o leitor do texto em aramaico, em vista do significado mais amplo das palavras que ele usou.
Felizmente ainda existe uma versão da Bíblia em aramaico, ainda que pouco conhecida. Ela é referida como Peshitta, sendo ainda hoje adotada pela Igreja do Oriente, principalmente em partes da Síria e da Armênia. A propósito, a palavra peshitta em aramaico significa “simples”, “sincero” e “verdade.”
Uma leitura meditativa da versão do Pai Nosso de acordo com o original em aramaico, pode revelar outros significados profundos que não foram conservados na versão tradicional da oração do Senhor. O texto abaixo foi adaptado do livreto do estudioso Neil Douglas-Klotz, “Orações do Cosmo”[2] em cotação com outras versões da tradução do aramaico.

O PAI NOSSO
(do original em aramaico)

Ó Fonte da Manifestação! Alento da vida!
Pai-Mãe do Cosmo!
Faz a Tua Luz brilhar dentro de nós,
para que possamos torná-la útil.
Ajuda-nos a seguir nosso caminho
movidos apenas pelo sentimento que emana de Ti.
Que nosso eu possa estar em sintonia contigo,
para que caminhemos com realeza com todos
os outros seres criados.
Estabelece Teu Reino de unidade agora.
Que Teu desejo e os nossos sejam um só,
em toda a luz, assim como em todas as formas.
Dá-nos o que precisamos cada dia, em pão e compreensão.
Desfaz os laços dos erros que nos prendem,
assim como nós soltamos as amarras que mantemos da culpa dos outros.
Não permita que a superficialidade e a aparência das coisas do mundo nos iludam.
Mas liberta-nos de tudo o que nos aprisiona.
E não nos deixes sermos tomados pelo esquecimento
de que de Ti nasce a vontade que tudo governa,
o poder e a força viva de todo movimento,
e a melodia que tudo embeleza
e de idade em idade tudo renova.
Amém.

O PAI NOSSO 
(em aramaico transliterado)
Abwun d’bwashmaya
Nethqadash shmakh
Teytey malkuthakh
Nehwey tzevyanach aykanna d’bwashmaya aph b’arha
Hawylan lachma d’sunqanan yaomana.
Washboqlan khaubayn (wakhtahayn) aykana daph khnan shbwoqan l’khayyabayn.
Wela tahlan l’nesyuna
Ela patzan min bisha.
Metol kilakhie malkutha wahayla wateshbukta
L’ahlam almin.
Ameyn.

Na sua versão em aramaico, a oração do Senhor tem a força de uma invocação.
O que está sendo invocado é a Fonte da Manifestação, que é também o Alento da Vida. Ainda que seja referido como o Pai-Mãe do Cosmo, as duas polaridades de todos agentes criadores, nossos geradores celestiais não são referidos como os criadores do cosmo, mas sim como a Fonte da Manifestação. O mundo em que vivemos, nos movemos e temos nosso ser não é uma ‘criação’ divina, no sentido de estar separado de seu criador, mas sim é uma manifestação, portanto, uma extensão ou um reflexo de sua fonte divina original. Tudo o que existe é uma extensão ou expressão de Deus; o Pai-Mãe celestial é imanente em todos os seres, é o sopro da vida que permanece em todos nós.
A natureza imanente do divino genitor é geralmente referida como um cerne de luz em todos os seres, ainda que na grande maioria essa luz permaneça latente. O devoto invoca ao Pai/Mãe celestial para que faça brilhar a luz divina em seu interior. O brilho da luz interior, geralmente conhecido como iluminação, ocorre quando o Cristo interior muito apropriadamente vem à luz. Somente quando a luz de Cristo está atuando conscientemente em nós, é que nos tornamos verdadeiramente útil ao mundo, promovendo a paz, iluminando e amando incondicionalmente a todos os seres.
O sentimento que emana do Pai-Mãe celestial é o amor, a energia divina que harmoniza toda natureza bem como a vida dos membros da família humana, guiando-os em segurança pelo caminho de retorno à Casa do Pai-Mãe. Quando alcançamos a sintonia como nosso divino genitor, fruto do nascimento de Cristo em nós, sabemos por experiência própria que ‘eu e o Pai-Mãe somos um.’ Uma vez conscientes de nossa natureza divina, iremos naturalmente caminhar com realeza com todos os outros seres, fazendo o bem sem olhar a quem, servindo de apoio e indicando o rumo a todos nossos companheiros de jornada neste mundo que ainda não despertaram para a realidade.
A unidade do Reino sempre existiu no plano espiritual. Somente no plano material vivemos na ilusão da separatividade, até que nossa visão espiritual seja desperta com o nascimento de Cristo em nós. A unificação do desejo dos homens com o desejo de Deus é o momento portentoso da libertação deste mundo; essa unificação é uma realidade permanente nos mundos de luz, ou seja, nos planos espirituais, mas deve ocorrer também no mundo das formas, para que possamos nos adentrar no Reino.
Ninguém é mais amoroso e mais sábio do que nosso Pai-Mãe celestial, portanto pedimos que nos seja concedido aquilo que Ele-Ela sabe que realmente precisamos, tanto em alimento material como em alimento para a alma, a compreensão da Verdade. O conhecimento da verdade é a dádiva celestial que nos possibilita desfazer os laços dos erros que nos prendem a este mundo. A raiz de todos os erros é a ignorância de nossa natureza divina e da operação das leis de Deus: o conhecimento da verdade desfaz os laços da ignorância. Mas para que isso ocorra, devemos, de nossa parte, relevar o comportamento de nossos irmãos que ainda cometem erros por ignorância. Ao perdoarmos de coração a todos os que nos ofenderam ou prejudicaram estaremos desfazendo os elos cármicos que nos prendem aos nossos inimigos, ou aos nossos devedores.
Quantas vezes nos deixamos iludir pelas aparências ao darmos atenção excessiva em nossa vida diária à natureza superficial das coisas. Ó Pai-Mãe celestial, conceda-nos a visão da realidade das coisas para que possamos nos libertar das ilusões que nos aprisionam.
Ó Pai-Mãe celestial, conceda-nos a Graça de vivermos permanentemente na Tua divina lembrança, jamais nos esquecendo que Tu és a Fonte de tudo o que existe. As leis que governam os mundos materiais e espirituais são expressões de Tua vontade. Ó Alento da Vida, Tu és o poder e a força viva de todo movimento, desde os mundos cósmicos aos mundos atômicos, passando por todas expressões da natureza em nossa Terra. Tu és também, ó Divino Músico, o compositor da música das esferas que a tudo embeleza com harmonia melodiosa, e que ao ritmo de Teus acordes renovas de idade em idade todas as coisas em Teu universo sem fim. Que assim seja para todo o sempre.

Autor: Raul Branco

5 de novembro de 2017

veste-me

banha-me, veste-me
unge os meus cabelos
com o perfume do amor

vestida de ti
investida em mim
partilho a luz
e glória da criação

pequeno pedaço de amor
igual ao todo



31 de outubro de 2017

Conheço o sal

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousada em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal dos teus mamilos,
e o da cintura se encurvando em ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.


Jorge de Sena

30 de julho de 2017

4 elementos IV

Sou o ar, uma partícula.
Ao meu redor vejo e sinto as partículas minhas irmãs, as filhas do ar. Vogando, flutuante, vertiginosas, enfurecidas, ventosas... um furação ou uma brisa leve.
Juntas somos o ar.
Adenso-me e mergulho num mar profundo e negro. Vou até ao fundo onde nada mais há. Só água em muitas gotas, as minha irmãs de água.
Fundo-me e recebo outras gotas em mim transformo-me e ascendo, renovada.
E em água e vento alimento o espaço e tudo em redor. As árvores....
Chego nas árvores com as minhas irmãs e somos seiva, somos árvore. Somos este desígnio de ser vida. Sou árvore. Sou vida transmitida a quem se alimenta de nós.
E sou quem se alimenta. Um gamo. Somos sangue e músculo a correr nas montanhas. A gota de saliva que cai no chão.
Sou terra agora, somos terra. Pareço morta, mas sou vida fervilhante. Somos partículas lentas e densas, algumas pesadas.. Todas diferentes, juntas neste desígnio de ser alimento mineral. Densas e comprimididas as irmãs somos rocha, metal. Somos a matéria que incandesce pelo simples prazer da compressão imensa.
Em lava, rios de alegria melosa, cantamos canções de esmagamento e fundimo-nos. Transformamo-nos em outro elemento e mudamos a natureza de ser.
Libertamos partes de nós em explosões de luz e calor. Energia radiante onde as minhas irmãs e eu seguimos sendo metamorfose, experiência e continuidade.
As minhas irmãs e eu, somos um e tudo o que existe.

28 de julho de 2017

fazedor de luas


Como te chamas, fazedor de luas?
Como as teces tão levemente?
Quem és tu, fazedor de luas?
Tanto cuidado no teu ombro largo.
Delicado como o luar,
Alumias o meu céu

14 de julho de 2017

27 de junho de 2017

rilke

"Não é somente a inércia a culpada pela repetição dos relacionamentos humanos, caso a caso, indescritivelmente, de forma monótona e sem renovação. É a timidez diante de novas e imprevisíveis experiências, para as quais acreditamos não estar preparados. Portanto, somente alguém que está preparado para tudo, que não exclui nada, nem o mais enigmático, vivenciará a relação com o outro como algo vivo."

"Talvez, todos os dragões nas nossas vidas sejam princesas que estão apenas à espera de nos ver agir, apenas uma vez, com beleza e coragem. Talvez, tudo aquilo que nos assusta seja, na sua essência mais profunda, algo desamparado que quer o nosso amor."

Rilke

It doesn’t interest me what you do for a living. 
I want to know what you ache for – and if you dare to dream of meeting your heart’s longing. 
It doesn’t interest me how old you are. 
I want to know if you will risk looking like a fool – for love – for your dreams – for the adventure of being alive.

Oriah Mountain Dreamer

31 de maio de 2017

toco o céu e enraízo-me na terra
o corpo expande e o espírito acalma
respeito o todo com serenidade interior
coração claro e atitude humilde
livre de pensamentos, a mente voa no azul
regressa e pousa em mim
que bem supremo
entrego-me e relaxo

(8 Versos do Zhineng Qi Gong, Pang Ming)

18 de maio de 2017

montanha

há tempo que aqui não estava

sem saudade
volto para a caverna
no alto da montanha

é demasiado lá embaixo
tudo puxa por mim
até ao ponto da loucura
sinto demais
tudo é extremo

exausta e sem recursos
volto

mas a aqui a dor é ainda maior

17 de maio de 2017

nascem universos

coisas explodem em mim
serão a morte de super novas
ou novos universos que nascem?

desintegrada
explodida no vazio

preciso ser contida
num abraço continuo e presente
até ser vida de novo


16 de maio de 2017

eu te céu


Pode-se inventar verbos? Quero inventar um: Eu te céu, assim minhas asas se tornam enormes para te amar sem medidas.


supostamente de Frida Khalo

15 de maio de 2017

ya pihi irakema

Eu fui contaminado pelo teu ser - uma parte de ti vive e cresce em mim.

Tradução de: "ya pihi irakema" - "Eu te amo", índios Yanomami na Amazonia.

14 de maio de 2017

metade de mim



Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.
Quer as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo

Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão

Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço

Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é plateia
a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também


Oswaldo Montenegro

13 de maio de 2017

árvore sem floresta


que ramos agrestes
tem esta árvore
que corta quem chega perto

que segredos ou força
tem que impede
criar uma floresta

um veneno frio
espalha-se no ar
invisível

mata a árvore
aos poucos



in "árvores de mim"

12 de maio de 2017

sem jogo

aqui estou
despida de jogo
toda a verdade

e não chega
nunca chega
ou é demais

11 de maio de 2017

voltam as águas

voltam as águas
uma maré cheia, larga
imóvel sobre as areias da praia

que faço agora?
imóvel a maré, a areia e eu
olhando tudo e afogando-me
de novo?

a perda. outra vez.

27 de março de 2017

roubado

não me roubes
tudo o que tirares 
não é verdadeiro

deixa o tempo
fazer crescer
a vontade de dar

17 de março de 2017

os teus lugares


moras em mim,
nos lugares que são apenas teus

na pele, as palavras
sussurradas, fortes e macias
nos ouvidos, as marcas
de dedos, em valsas lentas

no peito, a corrente
liga-me ao mar onde estás ancorado

12 de março de 2017

sem tempo

vou saber-te de cor
de olhos fechados
sigo as linhas dos dias
passados a vaguear sem tempo

3 de fevereiro de 2017

fico

de longe o meu olhar cruza o teu.
cresce em mim o rumor silencioso
de explosões em arcos de lava.
o olhar mantido, confiado.
deslumbrada, avanço
passo a passo, lento.
vou ao teu encontro
como quem segue o seu destino
e fico.

18 de janeiro de 2017

perto de ser

Pouco falta agora
uns ramos espalhados
umas pedras soltas
Aproximo-me do fim
A figura de metal negro
que vive dentro de mim
dissolve-se em águas quentes
que criam novas formas de cristal
e logo se derretem
Estou perto de ser eu

2 de janeiro de 2017

dentro da pele

Por fim, estás dentro de mim
guardado debaixo da pele
como o lugar certo para ficar
Ocupas o teu espaço
doce e intenso como o sabia
A maravilhosa admiração de te ter
tanta espera consumada